Notícias


BNDES como 'dealer' surpreende mercado


O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) começa a operar hoje como "dealer" do Banco Central (BC) no mercado aberto. O credenciamento do banco de fomento para compor, com outras onze instituições, o grupo que atuará diretamente com a autoridade monetária nos próximos seis meses, além de surpreender os participantes do mercado financeiro desperta controvérsia entre especialistas. A atuação de um banco de fomento como dealer de banco central é algo inédito. Não há notícia de participação semelhante em outros países.

A estreia do BNDES como dealer focado nas operações compromissadas do BC com o mercado - representadas pela compra ou venda de títulos da carteira do BC com data pré-determinada para revenda ou recompra junto à autoridade monetária - acontece em um momento particular do debate sobre as contas públicas do país.

A escassez de receitas decorrente do tombo do PIB em 7,5% em dois anos, apesar do controle de gastos, ameaça o cumprimento da meta fiscal deste ano, deficitária em R$ 139 bilhões. Fartamente utilizado nos governos do PT para conter os estragos da crise financeira global de 2008 na economia doméstica, o BNDES tornou-se um importante devedor do Tesouro Nacional pelos subsídios bilionários que bancaram suas operações de crédito firmadas por uma taxa de juro (TJLP) que raras vezes se aproximou do custo de financiamento do Tesouro.

Parcela não desprezível do desequilíbrio das contas públicas é atribuída ao diferencial existente entre a taxa Selic e a TJLP, cujo cálculo inclui o risco país. Essa é uma das razões que leva o governo a defender sua substituição pela TLP como indexador de crédito do BNDES. A nova taxa estará atrelada ao rendimento de um título público protegido contra a inflação (NTN-B). Para dois gestores ouvidos ontem pelo Valor, a decisão de tornar o BNDES dealer do BC é uma forma de aproximar a instituição ao mercado e assim lhe proporcionar mais informações sobre a formação de preços dos papéis que terão eco na TLP.

O ex-secretário do Tesouro Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, reconhece que o BNDES como dealer reduzirá os próprios custos com mais eficiência. Contudo, ele chama atenção para dimensão do estoque de títulos que o banco carrega (R$ 147,53 bilhões no 1º trimestre) "indiscutivelmente" importância para o mercado. Desse total, R$ 64 bilhões estão em operações compromissadas de curto prazo. "Isso significa 1% do PIB brasileiro", diz Kawall, que considera quitar a dívida com o Tesouro o melhor uso que o BNDES poderia dar ao seu grande caixa. Se o banco de fomento pagasse o Tesouro com o dinheiro que está nas compromissadas do BC, haveria efetiva redução da dívida pública neste momento de restrição fiscal.

José Roberto Afonso, pesquisador do IBRE/FGV, renomado especialista em finanças públicas, não vê mera coincidência no fato de a decisão de credenciar o BNDES como dealer ser anunciada depois da MP 777, que institui a TLP - substituta da TJLP que patrocinou os subsídios do Tesouro ao banco. "Como o BNDES não vai conseguir emprestar para ninguém, com a TLP, e se defrontará com um volume imenso de dinheiro empoçado, é coerente e consistente que seja autorizado a fazer operações compromissadas. O banco vai abastecer o mercado de liquidez, ou, na hora da crise, como agora, será mais um para absorver a liquidez do mercado. Aposto que nesse caso ninguém vai acusar o BNDES de estar socorrendo ou tirando o espaço do Banco Central."

Tornar o BNDES dealer no mercado aberto é torná-lo mais um refém da dívida pública e a taxa de juro de suas operações também. "É paradoxalmente o oposto do que o país precisa e do que o próprio Ministério da Fazenda corretamente definiu como objetivo, que é alongar o perfil das captações de recursos e, sobretudo, expandir a oferta privada de créditos para longo prazo, de modo a quebrar a excessiva dependência do BNDES e de fontes externas de recursos", afirma Afonso, para quem o BNDES deve ampliar o mercado de títulos privados e compromissadas do BC com o mercado.

Fonte: Valor Econômico
Publicada em:: 10/08/2017

    

Eventos

Fotos dos Eventos

Confira as fotos dos últimos eventos