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Fartura de grãos, com oferta bem distribuída, contém 'agroinflação'


Uma das grandes responsáveis pela manutenção dos índices inflacionários do país em baixos patamares neste ano, a produção recorde de grãos do ciclo 2016/17 tende a evitar pressões significativas de alta dos alimentos sobre o custo de vida mesmo durante o atual período de entressafra.

Se a oferta de feijão está menor do que se imaginava, o que oferece sustentação à leguminosa, a de arroz, complementada por importações desde vizinhos do Mercosul, deve ser mais do que suficiente para manter os preços combinados da dupla que mais frequenta o prato do brasileiro em níveis comportados nos próximos meses.

E, com a ajuda de volumosas colheitas de soja e milho - o cereal está cerca de 30% mais barato que no mesmo período de 2016 -, as carnes também deverão permanecer mais acessíveis mesmo no quarto trimestre, quando tradicionalmente as encomendas para as festas de fim de ano provocam picos indigestos aos bolsos - milho e farelo de soja representam 70% dos custos da avicultura, por exemplo.

No Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) o subgrupo carnes registrou deflação de 4,2% de janeiro a setembro deste ano. O peso das carnes no resultado geral até o mês passado (alta de 1,78%) foi de 2,62% - o frango inteiro respondeu por 0,45% e a fatia da carne de porco foi de 0,22%.

Também pressionado por reflexos baixistas derivados da Operação Carne Fraca - deflagrada pela Polícia Federal em março com foco em casos de corrupção entre fiscais agropecuários e funcionários de frigoríficos - e pelas delações dos irmãos Batista, que vieram à tona em maio, essa deflação das carnes foi bem superior à dos nove primeiros meses de 2016 (0,63%), quando a demanda estava menor em consequência da crise.

Segundo a Tendências Consultoria, os preços do frango deverão subir 10% no quarto trimestre em relação ao terceiro, mas na comparação com o mesmo intervalo do ano passado ainda haverá queda também de 10%. Com relação ao suíno vivo, Felipe Novaes, da Tendências, prevê aumento de 3,5% de outubro a dezembro em relação a entre julho e setembro e estabilidade sobre o fim de 2016.

Como normalmente acontece, os preços da carne bovina também continuarão a "balizar" os das carnes de frango e suína, alternativas mais baratas. E, como o ritmo de abate de bois foi afetado pela Carne Fraca e pelas delações, mas voltou ao normal e o atual ciclo da pecuária é de oferta mais elevada, a carne bovina tem pouco espaço para aumentar.

Somadas a esses fatores "extra campo" que tanto colaboram para que os alimentos produzam a inflação dos sonhos do governo, há questões estruturais relativas à produção de soja e milho e que, atualmente, restringem os picos de entressafra, que eram normais nesta época há alguns anos.

O tamanho das colheitas é o primeiro deles. No ciclo 2000/01, a safra de soja foi de 38,4 milhões de toneladas e a de milho atingiu 42,3 milhões. Em 2016/17, sem os problemas climáticos que geraram quebra no ano passado - e puxaram para cima a inflação dos alimentos -, foram 114,1 milhões de toneladas de soja e 97,7 milhões de milho.

Ainda que grande parte desses volumes sejam destinados à exportação, o fato é que a indústria de carnes tem menos problemas para se abastecer hoje do que no início do milênio. E esse abastecimento é mais regular, principalmente por causa da mudança de perfil da produção de milho.

Em 2000/01 a primeira safra de milho, colhida no verão, rendeu 35,8 milhões, seis vezes mais que a segunda safra, então chamada de "safrinha", normalmente plantada depois de concluída a colheita de soja de verão. Já em 2016/17 foram 30,5 milhões de toneladas na primeira safra e 67,3 milhões na segunda, cuja colheita termina no início do segundo semestre.

Como a "safrinha" virou "safrona", em mais uma demonstração da força dos produtores brasileiros de grãos, que otimizaram o uso da terra em suas propriedades, a oferta do cereal ficou melhor distribuída ao longo do ano, evitando sobressaltos - a não ser no caso de quebras climáticas como a de 2016.

"Olhando os últimos anos sem quebras, o que notamos é que, de fato, as altas do milho ficaram menos proeminentes no fim do ano", disse Felipe Novaes, da Tendências. Ele notou, porém. que esse aumento menor também não foi necessariamente traduzido em menores preços de carnes de frango e suíno ao consumidor, em virtude da influência da carne bovina.

"Claro que o preço do milho vai influenciar na margem [dos frigoríficos], mas não necessariamente no preço final", disse Novaes. Mesmo com custos maiores no ano passado, após a quebra de safra, os frigoríficos tiveram dificuldade de repassar preços e margens foram sacrificadas para manter o volume de vendas. Hoje a situação mudou.

Como realça estudo da consultoria MacroSector, essa situação mudou também porque os preços internacionais dos grãos estão em patamares mais baixos que no início desta década, e porque o real está mais valorizados em relação ao dólar, o que tira um pouco da competitividade das exportações brasileiras.

São fatores que, aparentemente, não vão mudar no curto prazo, mas que em algum momento poderão desequilibrar a balança. A expectativa de uma alta de juros nos EUA, por exemplo, costuma manter as cotações das commodities em patamares mais baixos, independentemente de seus fundamentos de oferta e demanda - o valor do dólar e das commodities caminham em direções opostas, até para manter a competitividade da produção americana.

E esses fundamentos, por sinal, atualmente indicam relações confortáveis. Sem grandes quebras mundo afora, no mercado de soja os estoques finais globais previstos pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) para o ciclo 2017/18, iniciado em setembro, deverão representar 28,3% da demanda. No milho, a conta resulta em 19,2%.

No tabuleiro da soja, que dos principais grãos negociados no mercado internacional é o de produção menor, o risco acaba sendo um pouco maior de desvios inesperados na rota internacional, uma vez que a oferta é muito concentrada no EUA e Brasil.

No caso do milho, há outro "porém" que poderá atrapalhar a distribuição mais regular da oferta no país. Para Ana Luiza Lodi, analista da INTL FCStone, a constante redução de área da safra de verão de milho no Brasil poderá, se a tendência se aprofundar, provocar uma sazonalidade invertida no preço do cereal. "Se, por algum motivo, tivermos um estoque menor, podemos ter desabastecimento de milho nos primeiros meses do ano. Não seria surpreendente".

"O que manda é o preço", pontua Juliano Cunha, analista da consultoria Céleres. Ele lembra que, no fim de 2016, a cotação do milho estava elevada em função da quebra de 2015/16, e isso provocou aumento de 14,6% na área da primeira safra do cereal em 2016/17.

Fonte: Valor Econômico
Publicada em:: 09/10/2017

    

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