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ABIFER na Mídia: Perspectivas para 2020 na mobilidade

10.01.2020 | | Notícias do Mercado

O momento é decisivo e grande parte das cidades está fazendo a escolha errada

 

Que de fato o transporte coletivo seja prioridade nas políticas públicas.

Que as pessoas voltem saber a viver em cidades, tendo como meta o deslocamento e não o meio, agindo coletivamente.

Que os gestores e empresários do setor de transportes realmente abram a cabeça e deixem de pensar que imprensa e opinião pública são inimigas e passem a dialogar melhor com os meios de comunicação e sociedade, tendo a humildade de admitir que têm seus erros e suas culpas sim, mas que possuem muitas virtudes, as quais não sabem comunicar ainda para o público.

Que a qualidade de vida e a preservação do meio ambiente estejam no centro das decisões dos governantes e da iniciativa privada, afinal sem pessoas saudáveis e com suas necessidades básicas plenamente atendidas, não há crescimento econômico, não há desenvolvimento social, não há lucro.

Sabe o que entristece ao escrever o início deste artigo? É que estas perspectivas para 2020 são as mesmas que eram para 2019, 2018, 2017, 2016 …. 1952 (quando foi ao ar o célebre filme da Jean Manzon Produções, que já retratava os gargalos da mobilidade. O tema era São Paulo, mas os problemas eram e ainda são em todo o País).

Se os desejos são os mesmos de décadas, o sinal é ruim. Eles não foram atendidos.

Ocorre que a roda da história não para de girar. Quando um problema grave não é resolvido começam a surgir falsas soluções.  Paliativos que não foram feitos para resolver nada, mas para dar lucro a oportunistas.

É justamente o que está ocorrendo na mobilidade e, em 2020, deve se intensificar. O momento é decisivo, mas muitas cidades estão fazendo a escolha errada.

A palavra da moda é a “demanda”. Mas oportunistas desvirtuam o sentido do que se deveria entender como demanda.

Na mobilidade, a demanda tem sido confundida com algo para atender o anseio individual: carro de aplicativo que ME pega em frente de MINHA casa e ME leva para o MEU destino, enquanto ouço MINHA música e penso em MEU mundo …

As ações estão muito para a primeira pessoa, para o MEU, o EU.

Mobilidade urbana nunca deve ser pensada sob esta perspectiva, a do “eu”. Políticas de mobilidade devem ser para o “nós”.

Assim, carros de aplicativo, patinetes, bicicletas alugadas (o termo mais certo que compartilhadas) e construção de mais ruas e avenidas podem e devem estar entre as opções de mobilidade, mas nunca ser o centro das gestões.

A fórmula é básica e óbvia: as cidades e regiões metropolitanas devem distribuir melhor as ofertas de emprego, renda e ocupação, para evitar a triste rotina que obriga as pessoas a fazerem longos deslocamentos entre a casa, o trabalho e o estudo todos os dias.

Paralelamente, a oferta de redes de metrô, trem, corredores e faixas de ônibus deve aumentar em médias, grandes e enormes cidades. Simples assim, sem os neologismos e as palavras chiques em outro idioma que, de tão fora da realidade brasileira, se tornam babacas em suas cansativas repetições.

Demanda não é gente. Demanda é necessidade.

Transporte sob demanda é aquele que atende às necessidades e não aos desejos individuais.

As pessoas necessitam se deslocar de forma rápida, confortável, eficiente, sem agressão ao meio ambiente e com custo baixo.  O transporte individual que se disfarça de compartilhado não entrega isso, mas por sua essência de atividade.

Atualmente, de forma geral, o transporte coletivo não está atendendo a isso, não porque não é sua essência, mas porque continua sendo renegado a planos inferiores em suas decisões.

E, como o jornalismo trabalha com fatos e não com deduções, o Diário do Transporte trouxe em 2019, ano que acabou, algumas notícias que provam esta triste realidade.

Em 20 de novembro de 2019, a reportagem noticiou que a Medida Provisória 906/2019 deu novo prazo para os municípios concluírem seus planos de mobilidade.

O novo limite passou a ser abril de 2021, conforme a MP que alterou a lei 12.587/12 (Política Nacional de Mobilidade Urbana).

Esta é a segunda alteração no prazo de entrega do PMU – Plano de Mobilidade Urbana.

O texto original da lei previa como limite abril de 2015. Medida Provisória 818/2048, publicada em janeiro de 2018, alterou este prazo para abril de 2019.

Lamentável que depois de tantos anos, ainda cidades no país não cumpram simplesmente a lei e sequer tenham seus planos para os deslocamentos dos seus, em primeira análise, contribuintes, mantenedores.

Aliás, mais lamentável ainda é o país precisar ter uma lei que obrigue as cidades a terem planos de mobilidade. É a mesma coisa que existir uma lei que obrigue as pessoas a respirarem para sobreviver.

No dia 2 de dezembro de 2019, o Diário do Transporte noticiou que o mercado de ônibus novos no Brasil registrou de janeiro a novembro deste ano, alta de 41,39% em comparação com o mesmo período de 2018.

Analisando apenas os números, a notícia é positiva, mas contextualizando com a realidade, na verdade revela que se trata apenas de um processo de recuperação depois de anos em queda significativa, entre 2014 e 2017. Além disso, esse crescimento se dá pela renovação de frota de veículos de transporte coletivo e não pela expansão dos sistemas. Prova é o tipo de ônibus vendidos, a maior parte com motor dianteiro e piso alto. E uma das explicações para isso, embora não a única, é que as cidades não oferecem condições viárias para ônibus mais confortáveis, com piso baixo (que oferecem acessibilidade a todos e não spara quem está em cadeira de rodas), e motorização traseira e central.

Triste também é a situação do setor metroferroviário.

O Diário do Transporte mostrou em dezembro que a Abifer – Associação Brasileira da Indústria Ferroviária revelou que a ociosidade das fabricantes do setor encontra-se perto de “dramáticos” 90%. Este quadro significou desemprego na indústria ferroviária: nos últimos anos perdeu 15% da força de trabalho, em torno de três mil demissões.

O ano de 2020 é de eleições municipais, que são grandes oportunidades para o início de transformações.

Isso mesmo, início. Eleições sem ilusão. Não é num mandato de quatro anos que o quadro vai mudar, mas uma oportunidade para a classe política começar a fazer política de verdade.

E política não é pedir voto, fazer negociatas, troca-troca, ou buscar por mídia. Mas é criar diretrizes para curto, médio e longo prazo, que ultrapassem quatro anos, quando necessário.

A população quer política … política de saúde, política de segurança pública, política de urbanização, política de mobilidade urbana  …

Chega do blá-blá-blá de “minha gestão”, como se não houvesse mundo antes e depois de ocuparem suas cadeiras.

Essa mudança vem da população, da sociedade civil.

Não adianta cobrar da prefeitura, se cada um se achar superior ao outro porque está dentro de um carro com ar-condicionado e mimos, mesmo que preso num trânsito infernal. Claro, se o carro é a melhor opção no momento, use. Mas reivindique mudança.

Não adianta o empresário de ônibus cobrar da prefeitura condições se sua frota está suja e com um barulho interno infernal por falta, às vezes, de um simples aperto na correria e de uma higienização adequada no veículo.

Não adianta a indústria apenas esperar incentivos tributários, se não inovar de verdade, com criatividade, independentemente de programas governamentais.

Não adianta os vislumbrados e mal intencionados vendedores de ilusões de mobilidade, com as propagandas enganosas de modernidade, acharem que vão enganar por muito tempo.

Que em 2020, a mobilidade de fato seja o centro das atenções e ações.

E para quem ainda não viu o filme que foi citado no início do artigo, segue o link:

 

Fonte: Diário do Transporte

Data: 01/01/2020