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ABIFER NA MÍDIA – Vicente Abate, da Abifer, aposta em crescimento do setor ferroviário, mesmo com pandemia e ausência de políticas públicas

15.12.2020 | | Notícias do Mercado

Indústria de material rodante atravessou 2020 com ociosidade de 90%, mas reativação de projetos e renovação de concessões animam

 

Trem da Série 9000 da Alstom na estação Aeroporto-Guarulhos da Linha 13-Jade. Foto: Diário do Transporte

Vicente Abate, diretor do SIMEFRE (Sindicato Interestadual de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários) e presidente da ABIFER (Associação Brasileira da Indústria Ferroviária), concedeu uma entrevista ao Diário do Transporte na tarde dessa segunda-feira, 14 de dezembro de 2020.

Abate fez um balanço da atuação do setor ferroviário em 2020 e falou das expectativas para 2021.

Os números em 2020 não foram nada bons. A indústria continuou neste ano com uma dramática ociosidade, retrocedendo a quase 90%, relatou o presidente da ABIFER.

TRANSPORTE DE CARGA

A indústria de vagões de carga, com entregas previstas de 1.800 unidades em 2020, recuperou-se em relação a 2019, quando foram entregues apenas 1.006 vagões.

O crescimento, no entanto, é ilusório: Abate lembra que é preciso olhar um pouco mais longe, e analisar a média histórica. “Nos últimos 10 anos a indústria produziu 3400 por ano em média, ou seja, estamos muito distantes desse número”, ressalta ele.

Já o setor de locomotivas sofreu ainda mais, e deve fechar o ano com apenas 29 unidades produzidas, menor número que em 2019, quando foram entregues 34.

SETOR DE PASSAGEIROS

Já no setor de passageiros, a indústria completaria em 2020 sete anos sem qualquer encomenda no mercado doméstico. Se não houve movimentação, as expectativas para os próximos anos são as melhores.

A retomada da construção da Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo trouxe como boa notícia em outubro deste ano a confirmação da concessionária espanhola Acciona que vai adquirir 23 trens da Alstom, com fabricação na planta de Taubaté, interior de São Paulo.

O lançamento do edital de concessão das Linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda da CPTM, com a concorrência marcada para março de 2021, traz a expectativa futura de aquisição de 34 trens.

Recentemente, como mostrou o Diário do Transporte, a Assembleia autorizou o Governo do Estado de São Paulo a contrair empréstimos externos para a aquisição de 44 trens, sendo 22 unidades para a Linha 2-Verde, e outros 22 para as Linhas 1-Azul e 3-Vermelha. No entanto, isso deve acontecer somente a partir de 2022. Relembre.

Ao perceber que todos os projetos citados estão em São Paulo, Vicente Abate faz questão de citar a expansão do Metrô de Salvador, com as obras do tramo 3 da Linha 1.

Ele cita ainda os projetos do Metrô de Fortaleza, a Linha 2 do Metrô de Belo Horizonte (da CBTU, incluído no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos do governo federal), o VLT da W3 em Brasília.

E finaliza lembrando um projeto icônico: o People Mover, que ligará a Linha 13-Jade da CPTM aos três terminais do Aeroporto de Guarulhos em São Paulo. Apesar de não saber ainda qual a tecnologia que será adotada, Vicente torce para que a indústria nacional seja prestigiada.

ANO RUIM PARA O TRANSPORTE DE PASSAGEIROS

Mas mesmo com todas as expectativas, 2020 fecha como sendo um ano muito ruim para a indústria de transporte ferroviário de passageiros.

Indo aos números reais: em 2020 a indústria ferroviária sediada no Brasil entregou apenas 72 carros de passageiros, todos encaminhados para o Metrô de Santiago, quando a previsão era de 131 unidades.

Para 2021, o volume esperado é ainda menor, com 43 carros, sendo 40 para exportação.

O problema da indústria é viver sempre com expectativas que não se consolidam. “Falta previsibilidade para planejar o setor”, diz Abate, que se queixa da falta de uma política nacional para as ferrovias.

Além da confirmação da Linha 6-Laranja (as entregas estão programadas para iniciar-se no primeiro semestre de 2024), Abate cita as exportações já fechadas para os Metrôs de Taipei e de Bucareste pela Alstom, que também serão produzidas na planta de Taubaté. Relembre.

INOVAÇÃO

Apesar de tudo, Abate diz que 2020 foi um ano em que a indústria no país aproveitou para lançar e consolidar produtos e serviços inovadores. “Vagões para o transporte de celulose, contêineres, grãos e minérios, que aumentaram a competitividade das concessionárias. Locomotivas elétricas a bateria, desenvolvidas e fabricadas por técnicos e engenheiros brasileiros, que já se encontram em operação em nossas ferrovias. Trata-se de um salto de tecnologia, totalmente alinhado com metas de redução de carbono, pois eliminam o consumo de combustível fóssil e não emitem gases e particulados no meio ambiente, o que coloca o Brasil na vanguarda do uso deste tipo de tecnologia para o transporte de cargas. Foi um ano também de consolidação de ferramentas e soluções digitais inovadoras nas ferrovias de carga, que contribuíram fortemente para o aumento da produtividade e segurança de suas operações”.

FUTURO

Vicente Abate gosta de falar do ativismo da ABIFER, que tem lutado para defender a indústria e viabilizar projetos.

É o caso por exemplo de uma atuação conjunta com o Ministério da Infraestrutura no desenvolvimento de uma Política Nacional de Transporte de Passageiros.

A ideia é aproveitar trechos já existentes e abrir programas de concessão para ferrovias de média e longa distância. “O objetivo é aproveitar esses trechos e revitalizá-los, e a partir daí fazer alguns projetos pilotos”, ele conta.

Outro exemplo de projetos que podem se tornar realidade é a utilização de trilhos que cruzam cidades do interior paulista para a implantação de VLTs. Isso seria possível graças à construção prevista de dois contornos ferroviários pela Rumo Malha Paulista em São José do Rio Preto e Catanduva, e dois já existentes em Araraquara e Barretos.

No caso de São José do Rio Preto, em conversa com o prefeito Edinho Araújo, este garantiu a Vicente Abate que seu plano é realizar esse projeto, após os trilhos no trecho urbano serem liberados.

Quanto ao Ferroanel, obra tão falada e planejada nos últimos anos, Vicente Abate contou que a concessionária MRS optou por fazer trechos segregados, ao invés da obra completa. Nesses trechos os trens de carga e de passageiros não são mais compartilhados. Abate estima que ao final, quanto todos os trechos estiverem completos, restarão apenas 8 km da Estação da Luz à Barra Funda.

Por falar em Barra Funda, Abate conta que esta é outra obra importante. A Estação se tornará um Hub de transporte. De lá nascerão os trens do TIC (Trem Intercidades, de Campinas a Jundiaí), do TIM (Transporte Inter Metropolitano) e da Linha 7 Rubi até Francisco Morato.

REPORTO E MARCO LEGAL

O regime tributário para incentivo à modernização e à ampliação da estrutura portuária – REPORTO pode significar uma mudança de rumo em 2021, acredita o presidente da ABIFER. Sua prorrogação para 2021 foi aprovada recentemente na Câmara dos Deputados, e aguarda agora o Senado Federal.

Outra boa notícia que Abate aguarda com ansiedade é a aprovação do Marco Legal das Ferrovias (PLS-261), ainda em tramitação. Ele conta que o relator Senador Jean Paul Prates já tem o relatório pronto para ser votado no Senado.

Os dois projetos deverão garantir volumes maiores de veículos, componentes e materiais para via permanente, já a partir de 2021”, acredita Vicente Abate.

Confiamos também na aprovação de todas as renovações antecipadas e na expansão das ferrovias de carga e de passageiros. Com isso, a indústria ferroviária instalada no País voltará a crescer e a garantir empregos qualificados e renda aos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros”, conclui Abate.

AUXÍLIO EMERGENCIAL

Assim como várias entidades ligadas ao setor de transportes, Abate manifestou insatisfação pelo veto do presidente Jair Bolsonaro ao auxílio emergencial de R$ 4 bilhões para o transporte coletivo urbano de passageiros de ônibus e ferroviário. Relembre.

Ele acredita que mesmo insuficiente diante do tamanho da crise por que passa o setor, o montante previsto ajudaria a aliviar o rombo de empresas que atuam nas concessões do Metrô Rio, do VLT Rio, Supervia, além de outros sistemas de trilhos de alta capacidade como os da capital paulista (Metrô e CPTM) e outros.

 

Fonte: Diário do Transporte

Data: 15/12/2020