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Candidato, Alckmin acelera abertura de estações do Metrô

06.03.2018 | | Não categorizado

Alckmin em inspeção de monotrilho em SP; em quatro anos, serão cerca de R$ 18 bilhões investidos em metrô e trens. Foto: Divulgação

“Nós estamos entregando as obras. Entrega, entrega, entrega. Cada semana, obras novas de metrô e trem. Num momento de dificuldade que o Brasil atravessa, São Paulo está investindo.” Foi assim que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) se expressou logo após fazer a viagem inaugural de trecho de uma linha de monotrilho na zona leste da capital. Cercado de fotógrafos e cinegrafistas, ele “pilotou” o trem aéreo por quatro estações em obras da linha 15-Prata, todas em fase de acabamento.

Dez dias depois, o pré-candidato à Presidência participou de mais um evento metroviário. Foi na sexta passada, quando cortou a faixa que marcou o início das operações da estação Eucaliptos do Metrô, linha 5-Lilás. Essa fica sob uma chamativa redoma de vidro numa praça em frente ao shopping Ibirapuera, um dos mais tradicionais da cidade. Ao discursar, Alckmin voltou a ressaltar o calendário de inaugurações “e dizer da alegria” de ter feito investimentos em “período de grande recessão”.

Não há exagero nos termos escolhidos. O ritmo de abertura de estações de metrô e monotrilho é recorde. Neste ano, serão entregues 20 novas estações em diferentes linhas. É mais que a soma de todas as inaugurações nos sete anos anteriores sob Alckmin (confira no gráfico). Até o início de abril, quando deverá renunciar para disputar a Presidência, o tucano deverá inaugurar outras nove estações. A partir daí até a eleição, mais oito. Para depois do pleito, só uma.

Em volume de investimento, não há nada perto disso em outras áreas do governo. Conforme o secretário de Transportes Metropolitanos, Clodoaldo Pelissioni, o Estado pagou R$ 13,5 bilhões em “empreendimentos metroferroviários” de 2015 a 2017. Deve desembolsar mais R$ 4,5 bilhões neste ano. Recursos próprios e de empréstimos via BNDES e Banco Interamericano de Desenvolvimento.

O ritmo chama ainda mais a atenção porque, no meio político, Alckmin contraiu fama de ser um político lerdo na entrega de promessas, em especial as de mobilidade. Das 20 estações que só agora estão em fase de acabamento, não há notícia de uma a ser inaugurada dentro do prazo originalmente anunciado. A Eucaliptos, por exemplo, havia sido prometida para 2014. Assim como a Higienópolis-Mackenzie, entregue em janeiro, e a Oscar Freire, a próxima.

Além de vistosas, estações do Metrô produzem impacto imediato nos locais em que são instaladas. A Mackenzie- Higenópolis dá uma dimensão disso. Com dois meses, já recebe 30 mil pessoas por dia. Neste ano, após todas as inaugurações, o total de viagens em todo o sistema deve saltar de 7,1 milhões por dia para até 8,5 milhões.

Alckmin e seus secretários refutam a insinuação de caráter eleitoral no calendário que concentrou inaugurações no ano da eleição. Os aliados mais próximos, porém, não ajudam a afastar a suspeita. Na sexta, um dos escalados para discursar na abertura da Eucaliptos foi o deputado estadual Barros Munhoz (PSDB), líder de Alckmin na Assembleia. Em tom exaltado, disse que queria “extravasar” sua alegria. Extravasou assim: “Graças a Deus nós temos à frente do governo do Estado, e vamos ter, a partir do ano que vem, à frente do Brasil, no comando da nossa nação, Geraldo Alckmin”. Os convidados interromperam para aplaudir.

Depois foi a vez do prefeito João Doria, também tucano. Falando sobre os empregos, deu o seguinte conselho ao governador: “O maior desafio que o senhor terá ao longo de sua trajetória para chegar à Presidência da República, e na qualidade de presidente da República, será a geração de emprego e a geração de renda”.

Ao falar, Alckmin não pediu voto nem mencionou o cargo que almeja. Mas aproveitou para ensaiar discurso que deverá usar na campanha. Além de listar as obras em curso, lembrou que havia acordado às 5 horas da manhã para acompanhar uma blitz em postos de combustível, ressaltou que sua gestão não atrasa salários e exaltou redução de impostos para genéricos, para o etanol e ao setor têxtil.

Quando é confrontado diretamente sobre o inusual ritmo de inaugurações em ano eleitoral, Alckmin cita obras que ficarão para depois da eleição e lembra das que foram entregues antes. Em fevereiro, um repórter perguntou se ele sentia “algum constrangimento em, num ano eleitoral, entregar tantas estações que estão muito atrasadas”. Alckmin respondeu: “Não, pelo contrário. A gente quer entregar o mais rápido possível. Entregamos estações no ano passado, entregamos neste ano, vamos entregar mais. E se eu me afastar do governo no dia 7 de abril, vai ficar muita estação para ser entregue. E também no ano que vem”.

Um outro repórter insistiu: “Tantas inaugurações assim em ano eleitoral é uma coincidência?” Alckmin respondeu: “Não. Entregamos em 2015, 16, 17. Vamos entregar mais este ano e no ano que vem. Ficou pronto, entrega”.

Pelissioni lista ocorrências que acarretaram atrasos e que estão fora do alcance do Estado: a Lava-Jato, que fragilizou algumas empreiteiras, a crise e a necessidade de relicitar obras após a desistência de consórcios já contratados.

Na sexta, ao chegar para inaugurar a Eucaliptos, ele foi apresentado à presidente da associação do bairro local, que estava acompanhada de outras quatro senhoras. A reportagem do Valor acompanhou o diálogo. “Desculpe pelo transtorno, eu sei que demorou mais que o previsto”, disse o secretário. “Ah, demorou mesmo”, respondeu uma das mulheres. “Eu queria ter entregue antes”, emendou Pelissioni. “E agora vão ficar todas prontas antes da eleição, né?”, finalizou a moradora.

Fonte: Valor Econômico
Data: 05/03/2018