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Cortes de custos dão certo e mineradoras voltam a investir

03.07.2018 | | Não categorizado

Depois de anos de cortes implacáveis nos custos e no endividamento, as grandes mineradoras estão começando a gastar de novo. Nos últimos 30 dias, da Austrália ao Peru, foram aprovados vários novos projetos e houve uma retomada das fusões e aquisições.

Desta vez, no entanto, com as cicatrizes da crise passada, que chegou ao auge no início de 2016, ainda não completamente cicatrizadas, as empresas vêm adotando uma abordagem mais disciplinada para a expansão e os investimentos. Também estão mais atentas à necessidade de aumentar o retorno dos acionistas e de melhorar as avaliações de suas ações, atualmente fracas.

Durante a onda de alta das commodities, alimentada pela China, o setor minerador investiu até US$ 1 trilhão em bens de capitais, mas ainda assim enfrentou dificuldades para gerar retornos positivos, algo que os investidores e as equipes administrativas ainda não esqueceram.

Em consequência, agora as mineradoras estão empenhadas em agir de forma diferente. Passaram a recrutar parceiros de bolsos recheados para dividir os custos do desenvolvimento de novos projetos. Também estão evitando as mega-aquisições do passado – que resultaram em bilhões de dólares em encargos por deterioração de valor – para priorizar alvos menores e mais fáceis de digerir.

“Não acho que estejamos vendo gastos excessivos da indústria. É basicamente cada empresa seguindo sua própria estratégia e, mais importante, ficando dentro de critérios disciplinados e conservadores”, disse Evy Hambro, chefe de investimentos em renda variável de recursos naturais da BlackRock.

“Para mim, isso é muito encorajador. Poderíamos facilmente ter visto uma volta aos velhos maus hábitos de gastos excessivos, uma vez que as empresas agora estão fazendo montes de dinheiro, os balanços patrimoniais foram recompostos e novos acionistas estão defendendo o crescimento”, disse. “Estou muito contente em ver que as empresas honraram seu compromisso de crescer em valor em vez de crescer por crescer.”

A PwC estima que os investimentos em bens de capital das 40 maiores mineradoras do mundo em 2017 totalizaram apenas US$ 48 bilhões e foram os menores desde 2006, com a maior parte do dinheiro tendo sido usada simplesmente para manter as operações em bom funcionamento. Entre os novos projetos, apenas dois, de cobre, custaram mais de US$ 500 milhões.

Em contraste, as grandes mineradoras devolveram US$ 43 bilhões aos acionistas, na forma de dividendos e recompras de ações, além de terem reduzido o endividamento em mais US$ 25 bilhões.

Mas, como a indústria deverá gerar cerca de US$ 70 bilhões em fluxo de caixa livre neste ano graças ao aumento nas cotações da commodities, agora as grandes mineradoras têm mais liberdade financeira para investir, segundo analistas. “As grandes mineradoras estão fazendo muito dinheiro e não são mais empresas de crescimento. Esse é o problema”, disse Colin Hamilton, chefe de análise de commodities na BMO Capital Markets. “Eles agora estão tentando solucionar esse problema de crescimento, mas não estão gastando agressivamente.”

No mês passado, a Vale anunciou que seguirá adiante com a expansão subterrânea de US$ 1,7 bilhão do Voisey’s Bay, um dos maiores projetos de níquel do mundo. Seu futuro estava incerto, uma vez que o executivo-chefe da Vale, Fabio Schvartsman, ordenou uma revisão do projeto logo após assumir o comando em março de 2017.

A expansão foi aprovada agora, depois de a Vale ter levantado quase US$ 700 milhões em junho vendendo a produção futura de cobalto, que é produzido juntamente com o níquel. A Vale informou que o negócio modificou a equação econômica do projeto, que agora é capaz de gerar um bom retorno pelos preços atuais do níquel.

“Se voltou a ser uma festa no setor? A resposta é não”, disse Neil Gregson, gerente de portfólio do J.P. Morgan Asset Management. “São simplesmente negócios normais. [As empresas de] Metais e minerais estão esgotando ativos […] você precisa ter algo no forno para substituí-los.”

A Anglo American, que tem ações negociadas no Reino Unido, também adotou uma abordagem mais conservadora para o desenvolvimento de seu projeto de cobre Quellaveco, no Peru, de 300 mil toneladas por ano.

No mês passado, a Vale anunciou que pretende seguir adiante com a expansão subterrânea de US$ 1,7 bi do Voisey’s Bay

Em vez de arcar integralmente com os US$ 6 bilhões dos custos de desenvolvimento, o executivo-chefe da Anglo American, Mark Cutifani, estava buscando um parceiro para ajudar a dividir os encargos, para apenas então apresentar o projeto de Quellaveco a seu conselho de administração para aprovação final.

Em junho, a Anglo American anunciou ter assegurado investimento de US$ 850 milhões da Mitsubishi Corp., do Japão, uma parceira de longa data que concordou em custear 40% dos custos de desenvolvimento do projeto.

“Em vista do estado dos balanços patrimoniais da indústria, não acho que ver empresas começando a desenvolver alguns dos melhores novos projetos de cobre em suas carteiras seja indicativo de disciplina fraca”, disse Nick Stansbury, gestor de fundos na Legal & General Investment Management.

Stansbury disse que a abordagem adotada pela Anglo American de “tirar risco” de seu novo projeto foi extremamente sensata. A opção contrasta com a forma como a mineradora desenvolveu o Minas-Rio, uma gigantesca mina de minério de ferro no Brasil. Depois de pagar demasiado alto pelo projeto, a Anglo American, então liderada por Cynthia Carroll, assumiu sozinha o valor do desenvolvimento, subestimando os custos e a complexidade do projeto. A mina acabou entrando em operação em 2014, com anos de atraso e bilhões de dólares acima do orçamento.

“Nossa distribuição de 40% de um projeto multibilionário como o Quellaveco é uma opção estratégica, que nos permite manter a flexibilidade do balanço patrimonial, buscar outras possibilidades de investimento […] e mitigar qualquer risco residual”, disse Mutifani. “Este modelo funcionou bem por muito tempo para a indústria petrolífera e nós na mineração aprendemos nossas lições com alguns investimentos desastrados com 100% [de capital próprio] que colocaram uma pressão indevida em nossos negócios.”

A onda de investimentos em mineração também chegou à Austrália, onde tanto a BHP Billiton quanto a Fortescue Metals Group anunciaram novos projetos de minério de ferro.

O projeto South Flank, de US$ 2,9 bilhões, da BHP Billiton, vai ser o maior de minério de ferro já feito na Austrália. A mina, cuja produção é estimada em 80 milhões de toneladas por ano, não vai jogar volume adicional no mercado, já bem abastecido, porque está substituindo um depósito que está chegando ao fim. O mesmo vale para a mina Eliwana, de US$ 1,3 bilhão, do Fortescue Metals Group.

“Se as minas estão investindo para expandir-se no momento? Não realmente”, disse Paul Gait, analista do Bernstein Research. “A maior parte do que estamos vendo em termos de investimento é a substituição ou o prolongamento da vida das minas.”

Houve algumas exceções, como a batalha de ofertas envolvendo o Fortescue Metals Group e Gina Rinehart, mulher mais rica da Austrália, pela Atlas Iron, uma mineradora relativamente nova no segmento de minério de ferro. Além disso, a South32 fez uma oferta de US$ 1,3 bilhão em dinheiro pela Arizona Mining, uma pequena empresa canadense de exploração que está desenvolvendo o que poderia se mostrar um depósito de níquel de alta qualidade.

Mas foram negócios pequenos que não trarão prejuízos substanciais caso enfrentem problemas.

Mesmo diante desse quadro, Hamilton, da BMO, projeta que em 2020 os gastos em bens de capital serão 25% maiores do que os atuais, tendo em vista as crescentes preocupações com o perfil de queda na produção da indústria como um todo. Ele acredita, entretanto, que as grandes mineradoras vão manter a abordagem mais disciplinada de gastos.

Há, no entanto, quem tenha dúvidas. “É muito fácil falar em disciplina no lado da oferta na esteira de um mercado em queda”, disse Stansbury, da Legal & General. “O teste real vai ser o que acontecer nos próximos dois a três anos.”

Fonte: Valor Econômico
Data: 02/06/2018