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Decisão na infraestrutura é uma coisa técnica e sem paixões, diz general

16.10.2018 | | Não categorizado

O general da reserva Oswaldo Ferreira, 64, se define como um guerreiro de selva. Um dos coordenadores do plano de governo de Jair Bolsonaro (PSL), Ferreira fala do presidenciável como se ele estivesse comandando uma tropa.

No entanto, rechaça qualquer autoritarismo do candidato. “Se ele for eleito, será um governo estritamente legal.”
Ferreira defende a disciplina —“uma coisa boa para a democracia”— e a hierarquia, regras básicas nas Forças Armadas.

O general, que chegou ao posto máximo da carreira como chefe do Departamento de Engenharia e Construção, é cotado para ser ministro da área de infraestrutura.

Uma das metas, segundo ele, será a retomada de obras paradas, principalmente a BR 163, que ele construiu os primeiros 13 quilômetros há 37 anos.

O plano de concessões deve prosseguir porque, segundo ele, “com R$ 30 bilhões [de Orçamento para investimentos] por ano não vai dar”.

Apaixonado pela Amazônia, Ferreira quer rapidez no licenciamento ambiental, mas defende a floresta e o ambiente. “Há outras áreas do Brasil que podem nos proporcionar o crescimento.”

O governo Bolsonaro será autoritário?

Uma coisa que eu posso deixar claro é que nós [militares] somos democratas. E disso não abro mão.

O Exército é uma instituição democrática. A nós é dada a faculdade de, pelo mérito, atingir o mais alto posto da carreira. Agora, temos regras marcantes: além da disciplina, uma coisa boa para a democracia, existe a hierarquia, que também faz muito bem. A tropa é uma representação da sociedade.

Bolsonaro é um capitão, e o bom chefe, o bom líder é o que dá o exemplo, e ele é justo. É assim que funcionamos.
Não quero um chefe bonzinho, quero um chefe justo. Veja que já é assim nas empresas. Aquelas que perduram mantêm a disciplina e a hierarquia.

Bonzinho a gente sabe que Bolsonaro não é. Ele será justo? Fará algo que não seja democrático?

Será um governo estritamente legal.

Se existe essa dúvida, não deveria. Não existe a hipótese de [Bolsonaro] querer coisas que não estejam previstas na Constituição.

O país está polarizado entre esquerda e direita. Bolsonaro vai conseguir apaziguar os ânimos exaltados??

A democracia pressupõe que as pessoas tenham suas convicções e que aceitem as regras do jogo no ato da eleição.

O Rio Grande do Sul já foi governado pela esquerda e pela direita. Nem por isso o estado entrou em convulsão.

Bolsonaro, vou falar palavras dele, disse que quer ser o presidente de todos os brasileiros. Então, que reine a paz para que todos nós possamos remar o mesmo barco para frente.

Teria sido melhor vencer no primeiro turno?

Do ponto de vista da transição, sim. Teríamos mais tempo. Mas não foi possível e temos de trabalhar para poder cumprir a tarefa de conquistar mais votos.

Se ele for eleito, garanto que vai ter muita gente sem Natal e Ano-Novo [risos].

Bolsonaro propõe governar com 15 ministérios, juntar Agricultura e Meio Ambiente, e criar uma pasta de infraestrutura. Não é muito conflito de interesse para administrar?

A questão de ter rapidez no licenciamento ambiental perpassa também os Transportes, Minas e Energia, outros ramos que influenciam na infraestrutura.

Eu tenho pena do ministro [risos]. Acho que tudo isso será revisto durante a transição.

O conflito entre desenvolvimento e ambiente é histórico. Marina Silva já deixou o governo Lula por embates nessa área. Qual o plano, afinal?

No Exército, não fazemos nada sem estudos de viabilidade técnica, econômica, ambiental e social. Nenhum tijolo pode ser colocado sem estudo. Não posso construir nada sem uma licença ambiental.

O linhão de energia de Roraima será feito, por exemplo?

Qualquer contorno para não passar pela reserva [indígena] é enorme. Será viável? O que aconteceria se passássemos [o linhão] por cima da BR 174? Não estudei ainda.

O que posso dizer é que, há bem pouco tempo, eu era comandante militar do Norte e, em 2015, os índios krikati, no Maranhão, derrubaram cinco torres de transmissão de energia. Dialogamos e entramos em um acordo para reconstruir.

Que outras obras sensíveis como essa estão no seu plano?

A transposição do rio São Francisco, porque o Nordeste precisa de água. E minha obra predileta, a BR 163. Eu fiz os primeiros 13 km de asfalto, em 1980.

Em 2017, tive o prazer de acompanhar o ministro dos Transportes para fechar a cooperação para construir os últimos 65 km. É uma obra que, como outras, quero ver pronta porque interfere no custo Brasil.
A mobilidade urbana também é importante. Cuiabá tem uma questão que veio da Copa [obras paradas por irregularidades]. Em Fortaleza, tem o metrô. São mais de 2.000 obras paradas. Temos de acabar o que começamos.
Teve muita gente com iniciativa [de começar obra] e nem tanta com acabativa [sic].

De maneira geral, a prioridade será tudo o que afeta a população. Mas temos de olhar o tabuleiro sem paixões, sem partidos, é uma coisa técnica.

Não há dinheiro para tudo. O sr. sugere manter o plano de concessões de Michel Temer?

Não tem outra solução para o que não for estratégico. Isso é uma posição do Bolsonaro e do Paulo Guedes [principal assessor econômico do candidato]. Precisamos de solução já para a infraestrutura e com R$ 30 bilhões de Orçamento por ano não vai dar.

Em 2001, viajei de carro de Brasília para Belo Horizonte. Era um jogo de videogame, desviando de buraco. Hoje, tem zero buraco. A rodovia foi concedida à iniciativa privada. E tem pedágio. Mas uma roda quebrada paga várias viagens.

Em Mato Grosso, por exemplo, é preciso uma solução de rodovia para o escoamento da safra. E, como ela vai dobrar, será preciso ferrovia, outros modos de transporte.

Há vários projetos, a Ferrogrão, a Fico, a Fiol, a Ferrovia Norte-Sul. O projeto da Ferrogrão, por exemplo, cruza a floresta amazônica. Eu defendo o aumento da produtividade [agrícola], mas sem precisar tocar na selva.

Então a Ferrogrão está fora?

Precisamos estudar. No momento, precisa de solução para a BR 163. Depois, ferrovia.

Existem obras paralisadas em decorrência da Lava Jato. O que fazer com Angra 3 e o Comperj, por exemplo?

O que posso dizer é que, se for para encerrar Angra 3, teremos de pagar R$ 12 bilhões em rescisões contratuais. Para concluir, serão R$ 17 bilhões.

No Comperj, já foram investidos R$ 12,5 bilhões. Faltam R$ 8 bilhões. Essa é a matemática que precisa ser colocada.
O que pode ser privatizado?

Considero que o refino e a distribuição de petróleo possam ficar com a iniciativa privada. O caso da Eletrobras precisa ser conversado.

Fonte: Folha de S. Paulo
Data: 14/10/2018