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Linha 20-Rosa: por que Metrô descartou mais estações na Faria Lima e optou por paradas nos Jardins?

17.08.2026 | | Notícias do Mercado

Fonte: O Estado de S. Paulo
Data: 17/08/2026

AME Jardins acionou o Ministério Público de São Paulo questionando o traçado escolhido pelo Metrô SP para a Linha 20-Rosa, que deve ligar o ABC paulista à zona oeste da capital paulista. A companhia descartou construir três estações na Avenida Brigadeiro Faria Lima e optou por um trajeto que passa pelo meio dos Jardins e de Pinheiros, o que tem motivado protestos da associação de moradores.

Os promotores pediram esclarecimentos ao Metrô. “Estudos técnicos utilizados na tomada de decisão foram disponibilizados em diversos meios, inclusive mediante consulta presencial e posterior fornecimento de cópias para garantir transparência em todas as etapas do processo”, diz a estatal, em nota.

O Metrô cita motivos de economia e viabilidade técnica para mudar o traçado original do projeto. Segundo a empresa, a primeira versão, preliminar, teria custo adicional de R$ 1,2 bilhão e levaria dois anos a mais para ser construída. Até o momento, os promotores não instauraram inquérito para apurar o caso.

“Alterar esse traçado é como fazer um metrô para atender à Avenida Paulista, mas instalar as estações na Alameda Franca”, afirma o presidente da AME, Frederico Marques Affonso Ferreira.

“A definição do traçado decorreu de estudos técnicos multidisciplinares. Foram considerados aspectos como demanda de passageiros, integração com a rede, viabilidade construtiva, riscos geológicos e de engenharia, impactos urbanos e ambientais, operação do sistema, desapropriações e custos de implantação e operação”, acrescenta o Metrô.

A linha vai ligar Santo André e São Bernardo do Campo, no ABC paulista, até Santa Marina, na zona noroeste da capital. O ramal ainda está em fase de desenvolvimento, com conclusão do projeto básico até o primeiro trimestre do próximo ano.

O plano é licitar o projeto executivo e contratar a obra em 2027. Se o cronograma der certo, a estimativa é começar a construção em 2028 e terminar até 2033.

O Metrô afirma que o esboço da linha, com 25 estações, incluindo cinco nas imediações da Faria Lima, custaria R$ 26,1 bilhões, com estimativa de demanda de 1,291 milhão de passageiros por dia útil. Já o trajeto escolhido, com 24 paradas, das quais duas ficam na avenida, foi orçado em R$ 24,9 bilhões com previsão de público diário de 1,266 milhão.

Dessa forma, a companhia aponta economia de 3%: o gasto por usuário da versão preliminar seria de R$ 20.220, enquanto o preço por viajante do traçado oficial ficou em R$ 19.660.

A instituição chegou a contratar o ex-presidente do Metrô Sergio Avelleda para realizar um estudo sobre o trajeto. O levantamento defende o percurso pela Avenida Faria Lima devido à maior concentração de postos de trabalho e fluxo de usuários.

“Havia a possibilidade de cinco estações ao longo da avenida, o que significaria maior demanda de usuários, melhor aproveitamento da infraestrutura e, consequentemente, maior retorno financeiro”, afirma o presidente da AME.

AME diz que linha fere tombamento

A AME também afirma que a linha afeta o perímetro tombado dos Jardins. A área tombada continuará com restrições a prédios, de modo que não passará por verticalização — diferentemente do que ocorre em Pinheiros.

“Eles afirmam que fere o tombamento do Jardins, mas temos todas as autorizações do Conpresp, Condephaat e Iphan (órgãos municipal, estadual e federal de patrimônio, respectivamente)”, diz Luiz Antônio Cortez Ferreira, gerente de Planejamento do Metrô, responsável pelo estudo do traçado do ramal.

A licença ambiental prévia do projeto foi emitida em setembro de 2024, com manifestações favoráveis da Prefeitura e dos órgãos municipal, estadual e federal de Patrimônio.

Caso o Metrô recue para o traçado preliminar, a companhia afirma que seria necessário refazer todo o estudo ambiental e as audiências públicas, além de obter outra vez as autorizações para o projeto. “E, se você muda o traçado para um, tem de mudar para todos, porque o novo desapropriado também não iria se conformar”, diz Cortez. “Não tem como fazer uma rede de metrô sem passar por baixo de Higienópolis, dos Jardins. É impossível.”

O presidente da AME afirma que a associação não refuta a obra na região, mas quer uma debater melhor o trajeto. “Queremos o metrô na área porque é uma alternativa mais sustentável, contribui para retirar carros das vias e atende quem precisa do transporte público.”

Baldeação com as linhas 4-Amarela e 22-Marrom

“Não podemos esquecer que uma linha está sempre inserida numa rede. Ela não é isolada no mundo”, afirma Cortez.

Segundo ele, é necessário calcular qual será o impacto das novas estações no restante do sistema metroferroviário e analisar se o novo projeto pode sobrecarregar algum outro trecho. Foi justamente isso que a companhia alega que verificou que ocorreria na região da Faria Lima.

Hoje, a Linha 4-Amarela já tem uma estação na avenida, no Largo da Batata. Mas a ideia é que mais dois ramais passem pela via, com baldeações entre si: a 20-Rosa e a 22-Marrom, que vai conectar Cotia e Osasco à capital, passando pela Rodovia Raposo Tavares e pela USP até a Sumaré, da Linha 2-Verde. O problema é que a Linha 4-Amarela já está no limite, com alta lotação em horário de pico.

“O trecho mais carregado da linha 4 é exatamente em Butantã e Pinheiros. A linha sai da Vila Sônia, enche até Butantã e só começa a esvaziar em Pinheiros, por causa da baldeação com a 9-Esmeralda”, diz Cortez. Esse cenário fez o Metrô conectar a 4 e a 22 só depois de Pinheiros. Inicialmente, a ideia era que a integração fosse no Butantã.“A (Linha) 4 já está sendo estendida até Taboão da Serra, o que vai adicionar ainda mais passageiros. Se acrescentássemos a 22 antes de Pinheiros, iríamos exigir ampliação da frota de trens para reduzir o intervalo entre viagens e caber mais passageiros por hora.”

Mas, continua o gerente de Planejamento, além do gasto extra, não há espaço no pátio de estacionamento para ampliar a frota.

O Metrô, então, decidiu deixar a baldeação entre a 22 e a 4 na Estação Faria Lima. “Mas a unidade não aguenta três linhas. No máximo, só mais uma. Ela não é tão grande, não foi projetada para isso. Já vamos ter de fazer adequações nela para acomodar a 22?, aponta Cortez.

A escolha pela 22, em detrimento da 20, foi tomada com base na demanda e destino dos passageiros. “Todo o eixo da Raposo Tavares está muito conectado ao Largo da Batata, que chama-se assim porque ficava ali a Cooperativa Agrícola de Cotia. As linhas de ônibus vindas da rodovia passam por lá até hoje. Metade dos passageiros desses ônibus desce no Largo.” Além disso, o Metrô projeta que menos passageiros farão baldeação da 22 para a 4 do que da 20 para a 4.

A decisão foi, portanto, de conectar a 20-Rosa com a 4-Amarela na Estação Fradique Coutinho, levantando protestos das associações de bairro de Pinheiros e dos Jardins.

O estudo da AME afirma que a Estação Fradique Coutinho não tem “as condições mínimas” para baldeação entre a 4-Amarela e a 20-Rosa. A justificativa é pelo fato de a unidade “não possuir mezanino, áreas de distribuição interna e plataformas adequadas para receber o movimento da Linha 20?.

“Serão necessárias grandes obras de adaptação da estação, com custos altos e prejuízos aos usuários atuais durante e após a execução dos serviços”, argumenta.

O projeto do Metrô, porém, é construir novas estruturas, incluindo um novo acesso, e os gastos com isso já estão nos cálculos do orçamento.

A escolha pela Fradique Coutinho e Cardeal Arcoverde

No trecho da Faria Lima entre a Avenida Rebouças e a Rua Tucumã, que engloba o Shopping Iguatemi e o Esporte Clube Pinheiros, o Metrô aponta perfil residencial, o que explicaria a opção por ter estação em outra área.

Cortez explica que as leis municipais nesta área permitem prédios apenas com fachada voltada para a Faria Lima. “Só é verticalizado na frente da Faria Lima. O resto é exclusivamente residencial de altíssimo padrão.”

“A demanda é muito mais baixa do que a região da Fradique Coutinho, que tem muito mais gente morando e circulando interessada em transporte coletivo”, diz o gerente.

Segundo o estudo da companhia, o trecho do Shopping Iguatemi concentra apenas 135 empregos por hectare. Já no intervalo entre as avenidas Cidade Jardim e Hélio Pellegrino há 365 empregos por hectare. “O núcleo dos empregos está na região do Itaim Bibi e o traçado escolhido a atende melhor.”

Cortez ainda aponta que o primeiro trecho, que engloba a área mais residencial, já é atendido pela Estação Faria Lima da Linha Amarela e pelo corredor de ônibus da Rebouças. “O passageiro da 20 que for para lá é atendido pela rede metroferroviária, através de apenas uma baldeação.”

Estudos da companhia ainda calculam que a área da Faria Lima próxima ao Largo da Batata está a 10 minutos de caminhada até a Cardeal ou a Fradique.

A justificativa para a escolha da Estação Cardeal Arcoverde (antes chamada de Teodoro Sampaio) em detrimento à Pedroso de Morais é similar. “É um eixo importante de transporte coletivo. Está no coração de Pinheiros e atende tanto o lado da Vila Madalena perto do Cemitério São Paulo, quanto o lado de Pinheiros.”

O estudo da AME Jardins, porém, afirma que o trajeto preliminar atenderia 16.292 trabalhadores e 446 estudantes a mais do que na atual escolha do Metrô.

Outro ponto defendido por Cortez é que o traçado escolhido apresenta menos dificuldades para construir. “O trecho de Pinheiros não passa por baixo de meio de quadra. Segue o eixo das ruas. É um risco construtivo muitíssimo menor.”

A única área onde a tuneladora passará pelo meio das quadras será nos Jardins. “Mas é um trecho não verticalizado. É uma diferença muito grande passar embaixo de um prédio a 40 metros de profundidade e passar embaixo de um sobrado.”