05.01.2026 | ABIFER | Notícias do Mercado
Fonte: Folha S. Paulo Data: 03/01/2026
As indústrias ferroviárias instaladas no país projetam fabricar mais locomotivas, vagões e carros de passageiros em 2026, mas afirmam que o desempenho poderia ser melhor se houvesse igualdade de condições em relação à concorrência estrangeira. Da China, no caso.
A CRRC, estatal chinesa que é a maior fabricante de suprimentos ferroviários do mundo, venceu concorrência bilionária do Metrô de São Paulo, está no consórcio do TIC (Trem Intercidades) e foi fornecedora recente de trens para a única rota interestadual com operação diária no país.
A ABIFER (Associação Brasileira da Indústria Ferroviária) afirma que o cenário previsto para este ano deverá resultar na fabricação de 72 locomotivas, ante 66 de 2025, o que significa 9,09% mais, desempenho que também se refletirá nos vagões de cargas e carros de passageiros.
A previsão é que sejam produzidos 1.900 vagões de carga, 200 a mais que neste ano, ou 11,76% mais. Se confirmada, representará o quarto ano seguido de crescimento no segmento.
Devem ser produzidos ainda 193 carros de passageiros, aumento de 58,19%, robusto se comparado aos 122 de 2025 que, no entanto, foi um ano ruim para o setor —em 2024, foram 228 unidades.
No caso dos vagões e das locomotivas, o patamar projetado pela ABIFER é o maior da década. Desde 2018, quando foram fabricados 2.566 unidades, as indústrias não produziam tanto. As locomotivas, por sua vez, terão o melhor desempenho desde 2017, ano em que 81 unidades foram fabricadas.
O presidente da ABIFER, Vicente Abate, afirma que o cenário poderia ser melhor se houvesse igualdade de condições em relação à concorrência externa.
“Nós temos uma pressão muito grande dos chineses no mercado brasileiro. Eles são muito agressivos comercialmente falando. Têm qualidade, não quero aqui colocar suspeita em qualidade”, diz. Em 2019, a Supervia retirou de circulação 40 trens produzidos pela CRRC após apresentarem problemas em suas caixas de tração. Abate diz que que esse problema ficou no passado.
Para o executivo, o poder econômico das companhias chinesas leva a operações agressivas. Ele cita a concorrência dos 44 trens para o metrô de São Paulo, que serão fabricados pela CRRC. Segundo ele, os fabricantes nacionais chegaram ao limite no pregão.
O governo paulista assinou neste ano um contrato de R$ 3,1 bilhões para o fornecimento de 44 trens para as linhas 2-Verde, 1-Azul e 3-Vermelha do Metrô. A CRRC deve fazer a primeira entrega no primeiro semestre de 2027, e a previsão é que todos estejam prontos para operação em 2030.
Com sede em Pequim, a CRRC tem rendimento anual na faixa dos R$ 170 bilhões, segundo dados de 2023 da revista Fortune. A companhia tem contratos de venda com países como Alemanha, Suíça e Japão, é fabricante de trens usados nos Estados Unidos, México, Portugal e Turquia e, nos últimos anos, saiu vencedora de leilões para construir linhas de metrô em Medellín e Bogotá.
Ela faz parte do consórcio encabeçado pela Comporte, holding brasileira ligada à família Constantino, fundadora da Gol, e que fará o TIC (Trem Intercidades) e também foi a fornecedora dos trens de passageiros comprados pela Vale para operar na Estrada de Ferro Vitória a Minas.
O vice-presidente do Simefre (Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários), Massimo Giavina, afirma que as indústrias brasileiras são competitivas no exterior, mas sofrem no mercado interno o que ele considera ser concorrência desleal.
Abate disse que o setor tem trabalhado junto ao governo no sentido de obter financiamentos mais competitivos, e para isso tem feito visitas a ministérios e conversado com deputados federais, senadores e o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB).
“Há empresas fornecendo para Taiwan, Romênia, Chile. A Alstom já forneceu mais de mil carros de passageiros para o exterior. Nós temos competitividade, mas queremos isonomia”, disse Giavina.
Para fornecer ao metrô de São Paulo, a CRRC deverá ter parte da sua produção em Araraquara (a 273 km de São Paulo), numa área da Hyundai Rotem, com investimento de R$ 50 milhões e que deve gerar cem empregos. O contrato exige um índice de nacionalização na produção.
A trajetória prevista para o ano que vem indica a tendência de retomada gradual da indústria ferroviária nacional, impulsionada principalmente pela demanda de cargas e por investimentos em renovação e expansão de frota, mas o setor ainda opera bem abaixo de sua capacidade histórica máxima.
Em 2016, foram feitos 473 carros de passageiros, um ano após as indústrias produzirem 129 locomotivas. O total de vagões projetado para 2026 representa só um quarto dos 7.597 fabricados em 2005.
A Marcopolo Rail, braço da Marcopolo especializado no setor ferroviário, é uma das fabricantes com encomendas para serem entregues em 2026. Após fornecer neste ano dois trens para a EFE Trenes de Chile, ela entregará trens para o Metrô de Teresina —duas composições de dois carros de 18 m cada.
“É um ramal histórico, esse de Talca-Constitucion [Chile], que opera com trem muito antigo hoje. São trens, inclusive, que já vão virar turísticos e museus. E o nosso trem vem para trazer, inclusive, uma velocidade melhor para esse ramal e um conforto para a população. O impacto na região é muito grande”, diz Petras Amaral, gerente-executivo da companhia.
Ele afirma que a atualização das redes de metrôs brasileiros e projetos em desenvolvimento representam uma oportunidade de crescimento para a empresa, criada há cinco anos, e cita trechos ferroviários não aproveitados por concessionárias de cargas como potenciais para a implementação do transporte de passageiros.
“É importante aproveitar essas ferrovias devolvidas ou até revitalizar alguns ramais importantes. Isso torna mais rápida a implementação dos trens regionais. E, no meio urbano, vejo muita oportunidade de uma reconfiguração dos sistemas atuais nas cidades, com trens como o VLT fazendo uma requalificação urbana, trazendo um novo valor agregado para determinadas regiões.”
Presidente da Wabtec —fabricante de locomotivas— na América Latina, Danilo Miyasato afirma que o país vive um momento “muito positivo de mercado”, com as renovações das concessões ferroviárias refletindo nos pedidos às indústrias e com os cenários econômicos de setores como mineração, agronegócio, papel e celulose.
“O mercado está ficando cada vez mais maduro, vendo a necessidade da programação no mercado ferroviário, a necessidade do planejamento. Hoje a gente vê demandas sendo colocadas aí para os próximos dois, três anos, a gente pode trabalhar junto, gerar produtividade e eficiência na cadeia”, disse.
A fabricante, que tem sede em Contagem (MG), inaugurou neste mês um centro global de engenharia e uma nova linha de produção de locomotivas –agora são duas.