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Estados do Sul querem ampliar uso das ferrovias para cargas e iniciam estudo sobre Malha Sul

24.09.2026 | | Notícias do Mercado

Fonte: ABC Mais
Data: 21/09/2026

Os estados que integram o Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul) deram início nesta segunda-feira (21) aos estudos que pretendem embasar uma nova proposta para o futuro da Malha Sul ferroviária. Contratado pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), o consórcio formado por Alvarez & Marsal, EC Projetos e Machado Meyer terá até dez meses para concluir as análises, mas a expectativa é apresentar um diagnóstico preliminar e os primeiros cenários já em dezembro deste ano.

O trabalho vai avaliar as condições da infraestrutura ferroviária, os modelos operacionais e regulatórios, os gargalos físicos e a integração da ferrovia com os principais complexos portuários da região. Também serão estudadas a demanda por transporte, diferentes tipos de carga, experiências internacionais e alternativas para o redesenho da Malha Sul.

A iniciativa envolve Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, além do Mato Grosso do Sul. Segundo o governo gaúcho, o objetivo é produzir uma base técnica para que os Estados participem das discussões com a União sobre a próxima concessão ferroviária.

Estado contesta modelo apresentado pela União

Durante o anúncio, o secretário estadual de Logística e Transportes, Clóvis Magalhães, afirmou que o modelo econômico-financeiro apresentado até o momento pelo governo federal apresenta limitações para o Rio Grande do Sul e não contempla demandas de setores da economia estadual.

“Esse estudo tem uma perspectiva de que, em dezembro, nós teremos uma boa contribuição, uma boa qualidade de oferta de documentos, estatísticas, dados, evidências que nos permitam levar ao Rio Grande do Sul uma consideração de que o Estado precisa, sim, da ferrovia e não abre mão dela”, afirmou.

Segundo Magalhães, a situação atual também é marcada por uma redução da extensão da malha efetivamente em operação. Dos cerca de 3,8 mil quilômetros de ferrovias existentes no Estado, somente cerca de 800 quilômetros estão atualmente em operação, conforme os dados apresentados pelo secretário. Ele também afirmou que trechos que já chegaram a operar com velocidade de 24 km/h hoje têm restrições que reduzem esse índice para cerca de 12 km/h. “Uma pessoa a pé chega mais rápido”, pontuou.

O secretário defendeu que a nova concessão considere o crescimento da produção gaúcha e novas cadeias produtivas instaladas no Estado. Para ele, a ferrovia precisa deixar de ser tratada apenas como uma política de governo e passar a ser considerada uma estratégia de Estado.

Modelo para os próximos 30 anos

O diretor de Planejamento do BRDE, Leonardo Busatto, afirmou que o novo contrato de concessão deverá considerar um horizonte de 30 anos. Segundo ele, o estudo também vai analisar a possibilidade de novas conexões ferroviárias que não estão contempladas no modelo atualmente discutido pela União.

Entre os pontos citados está a possibilidade de ampliar a ligação ferroviária entre o oeste do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, além de melhorias na infraestrutura existente, como aumento da velocidade dos trens.

“Não se trata de uma posição isolada do governo; ao dialogarmos com o setor produtivo e as federações empresariais, constatamos que empresas chegam a planejar o escoamento diário de 130 bitrens até o Porto de Rio Grande, quando essa operação deveria ser realizada via modal ferroviário”, afirmou Busatto.

O diretor também destacou demandas específicas dos demais estados. Santa Catarina busca ampliar a conexão ferroviária com seus portos, enquanto o Paraná defende projetos como contornos ferroviários para retirar o tráfego de cargas de áreas urbanas. 

União deverá prorrogar concessão

O governador Eduardo Leite afirmou que o estudo não será concluído antes de todas as discussões com o Governo Federal e que os Estados já atuam na defesa de suas propostas. Segundo ele, a proximidade do encerramento da atual concessão, previsto para março do próximo ano, e a sinalização do Ministério dos Transportes de uma possível prorrogação criam uma janela para aprofundar o debate. “A conclusão do diagnóstico das condições atuais permitirá que os estados apresentem ao Governo Federal uma proposta fundamentada”, afirmou.

Leite também contestou críticas de que os Estados teriam demorado para apresentar um diagnóstico próprio. Segundo o governador, o Rio Grande do Sul vinha solicitando ao Ministério dos Transportes acesso às informações e participação nas discussões antes da abertura da consulta pública.

“Não aceito a crítica feita pelo Ministério dos Transportes, rechaço e fico indignado com essa postura que não é colaborativa para a solução dos interesses de uma região importante do país”, disse.

O governador afirmou ainda que, além do diálogo com o Ministério dos Transportes, os Estados pretendem atuar junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) e utilizar os estudos técnicos para apresentar contrapontos ao modelo econômico-financeiro em discussão.

Malha também é vista como vetor turístico

Além do transporte de cargas, o governo estadual pretende avaliar o potencial turístico da infraestrutura ferroviária. Clóvis Magalhães afirmou que a malha de aproximadamente 3,8 mil quilômetros teve papel histórico na ocupação territorial do Estado e que a recuperação dos trilhos pode abrir espaço para novas atividades econômicas.

Como exemplo, citou o Trem dos Vales, que recebeu R$ 6 milhões por meio da Antur Vales para a recuperação do trecho afetado pelos eventos climáticos.

A discussão, segundo o secretário, será inserida em uma estratégia mais ampla de multimodalidade, que também envolve rodovias, hidrovias e aeroportos. O governo prevê consolidar até o fim de dezembro a revisão do Plano Estadual de Logística e Transportes (PELT), com participação em audiências públicas.