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Ferrovia abre caminho para uma nova etapa de industrialização

06.07.2026 | | Notícias do Mercado

Fonte: O Globo
Data: 04/07/2026
O Brasil está deixando para trás a era dos projetos ferroviários isolados e ingressando em um novo ciclo de planejamento, baseado em redes integradas, interoperabilidade e redução de custos logísticos. A EF-118, que ligará os estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, representa um dos projetos mais estratégicos desse novo momento.
A área de influência direta da ferrovia é responsável por aproximadamente 80% da produção brasileira de petróleo e gás natural. Trata-se da maior concentração energética da América Latina. Entretanto, a verdadeira riqueza dos recursos naturais está na capacidade de transformá-los em produtos industrializados, empregos qualificados, inovação tecnológica e desenvolvimento econômico. Exportamos petróleo, importamos fertilizantes e continuamos dependentes de cadeias globais para o fornecimento de insumos essenciais ao agronegócio.
A EF-118 ajuda a mudar essa equação. Ao conectar a principal região produtora de petróleo e gás aos principais mercados consumidores e polos industriais do país, a ferrovia cria as condições logísticas necessárias para uma nova etapa de industrialização.
Nesse contexto, o Complexo de Energias Boaventura, antigo Comperj, assume papel estratégico. Com acesso abundante a gás natural, proximidade dos principais portos do país e conexão direta com a futura malha ferroviária nacional, o complexo reúne condições para se consolidar como um dos maiores polos industriais da América Latina. A EF-118 é o ativo logístico capaz de transformar esse potencial em realidade.
E, mais importante que os produtos cuja produção poderá ser ampliada ou viabilizada com a rede ferroviária, destaca-se o ecossistema econômico que poderá surgir ao redor deles. A EF-118 cria condições para atrair investimentos em fertilizantes, petroquímica, química fina, combustíveis sustentáveis, armazenagem, logística e transformação industrial.
A relevância dessa transformação torna-se ainda mais evidente quando observamos a questão dos fertilizantes. O Brasil é uma potência agrícola global, mas permanece fortemente dependente da importação de fertilizantes nitrogenados. Essa dependência expõe o agronegócio nacional à volatilidade cambial, às crises geopolíticas e às interrupções nas cadeias globais de suprimentos.
A busca pela autossuficiência em fertilizantes exige duas condições indispensáveis. A primeira é a industrialização próxima às regiões produtoras de petróleo e gás. A segunda é a existência de uma infraestrutura logística capaz de distribuir essa produção, a custos competitivos, até as principais fronteiras agrícolas do país.
A EF-118 é a peça central dessa estratégia. A ferrovia permitirá conectar a produção industrial do Complexo Boaventura aos principais polos consumidores brasileiros, reduzindo significativamente os custos de transporte e ampliando a competitividade da indústria nacional.
A partir da ligação com a Estrada de Ferro Vitória-Minas, a carga poderá acessar a Ferrovia Centro-Atlântica, o corredor Minas-Bahia e, futuramente, a Transnordestina, alcançando o Matopiba, uma das regiões agrícolas mais dinâmicas do planeta. Em sentido inverso, a produção agrícola poderá acessar os portos do Rio de Janeiro, do Açu e do Espírito Santo por corredores de alta capacidade, com maior eficiência operacional e menor custo logístico.
O potencial de integração não se limita ao eixo Norte-Sul. A conexão futura da EF-118 com a Malha Oeste, por meio do Ferroanel, permitirá ampliar ainda mais os efeitos de rede.
Mais que um novo corredor logístico, a EF-118 tem potencial para inaugurar uma nova etapa do desenvolvimento nacional, baseada na integração da malha ferroviária, na redução dos custos logísticos, na reindustrialização e na construção de uma economia mais produtiva, integrada e competitiva.
*George Santoro é ministro dos Transportes, Leonardo Ribeiro é secretário nacional de Transporte Ferroviário