11.05.2026 | Assessoria de Imprensa | Notícias do Mercado
Fonte: Valor Econômico Data: 11/05/2026
Após três anos de estruturação, o governo federal espera oferecer uma leva de projetos ferroviários ao mercado ainda em 2026, apoiado em novo modelo de financiamento de longo prazo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em entrevista ao Valor, o ministro dos Transportes, George Santoro, afirmou que a pasta pleiteou linhas com prazo mínimo de 50 anos, além de flexibilidades nos pagamentos para os períodos de maior intensidade de investimentos e ausência de receita, como nos primeiros anos de concessões “greenfield” (construídas do zero).
A medida, segundo ele, deverá ajudar a destravar o apetite do mercado pelos projetos, que também contarão com outras fontes de financiamento, como debêntures de infraestrutura e capital privado.
Mesmo em um cenário de maior cautela do Banco Central (BC) em relação ao ritmo de cortes de juros e com o avanço da corrida eleitoral, o governo não vê risco de falta de interesse nos leilões e aposta que projetos bem estruturados, com matriz de risco definida e previsibilidade regulatória, continuarão atraindo investidores. A Selic está em 14,5% ao ano.
“Será uma linha mais longa de financiamento ferroviário, com algumas condições de flexibilidade, que em breve estará formalizada. É bastante importante, em alguns projetos vai ser fundamental”, avalia. “Isso ajuda, mas o BNDES não fará o funding todo do projeto. Estamos trabalhando com cenários variados de financiamento.”
No comando do ministério desde abril, após a saída de Renan Filho (MDB) para concorrer à eleição para o governo de Alagoas, Santoro acompanhou a formulação da carteira de concessões da pasta desde o início do governo. Ele foi secretário de Fazenda de Alagoas sob o comando de Renan Filho e assumiu a secretaria-executiva do ministério em 2023.
Segundo Santoro, o governo herdou projetos com modelagens inadequadas e precisou revisar estudos, criar novas diretrizes regulatórias e estruturar uma política específica para concessões ferroviárias. “Durante 30 anos, tivemos três leilões de ferrovias apenas. E já construídas. Agora estamos tratando de projetos ‘greenfield’, que têm um risco maior. Tivemos que entender o mercado”, diz.
A estimativa é que sejam levados quatro projetos ao mercado neste ano, além do chamamento público para autorização de exploração da infraestrutura ferroviária do Corredor Minas-Rio. O governo também planeja realizar o leilão de 20 terminais logísticos e de, pelo menos, oito chamamentos públicos de ferrovias de cargas e turismo ainda em 2026, além da possibilidade de ofertar a linha Brasília-Luziânia, de passageiros.
O ministro afirma que há empresas internacionais analisando os projetos em estruturação e diz não acreditar que o cenário eleitoral deverá afetar o interesse pelos ativos. A expectativa é que não falte concorrência nos certames previstos para os próximos anos. O desafio, segundo ele, será cumprir o cronograma. A pasta vê potencial para contratar até R$ 500 bilhões em investimentos nos próximos oito anos, considerando projetos ferroviários e rodoviários.
“Há muitos players, até mesmo do segmento de rodovias, estudando os projetos de ferrovias. Acreditamos que, por enquanto, há interessados em todos os tipos de projetos”, diz. “Não vai faltar bid [lance] em nenhum leilão nosso. O que temos que nos desdobrar é manter a carteira no cronograma.”
Os dois projetos ferroviários mais avançados hoje são o Arco Ferroviário do Sudeste (EF-118) e a Ferrogrão, ambos já em análise pelo Tribunal de Contas da União (TCU). A expectativa é que os projetos sejam julgados pelo TCU até junho, abrindo espaço para a publicação dos editais no início do segundo semestre, em julho. Entre os projetos considerados prioritários, também está a Malha Oeste, que tem previsão de ser julgada em maio pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), após a reestruturação do projeto, e, em seguida, enviada ao TCU.
O governo também trabalha para resolver entraves ao projeto do corredor Leste da Fico-Fiol, que deve ser analisado pela agência reguladora em julho, para publicação do edital no segundo semestre. Já para a Malha Sul, a pretensão é que a ANTT julgue o caso em maio, para abrir a audiência pública e debater o modelo. A expectativa, mesmo assim, é publicar o edital ainda neste ano, mas deixar o leilão para 2027. O edital da Ferrovia Açailândia-Barcarena também deve ser publicado neste ano.
A carteira foi desenhada visando uma integração completa das malhas e a entrada de operadores independentes, que possam atuar em trechos separados. A estratégia busca aumentar a competitividade não apenas nos leilões, mas também em outros segmentos, com acessos portuários. Também abre espaço para a oferta de pequenos trechos, que o governo pretende levar ao mercado por meio de chamamentos públicos, em vez da licitação tradicional.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres aprovou na última quinta-feira (7) o primeiro projeto ferroviário a utilizar esse modelo: o corredor Minas-Rio.
A avaliação do ministro é que o caso servirá de referência para futuros projetos, sendo essa a primeira oportunidade para criar um entendimento no TCU sobre o modelo e, futuramente, padronizar os procedimentos para os próximos chamamentos públicos.
“Temos uma demanda crescente para os próximos anos, segundo nossos estudos. Precisamos resolver esse gargalo de qualquer maneira e vamos precisar desses grandes corredores. Mas também existe uma demanda para cargas menores, que podemos atender com maior interoperabilidade da malha e para a qual acreditamos que vamos conseguir ter ‘bid’”, afirma.
A carteira, construída em paralelo à de concessões, reúne projetos voltados ao transporte de cargas, trens turísticos e até estudos iniciais para futura carteira de trens de passageiros. “A dificuldade é que não tínhamos nada”, diz.
Além da agenda ferroviária, o ministério também tenta resolver entraves na implementação do sistema de pedágio eletrônico “free flow” (livre passagem). Recentemente, o governo suspendeu temporariamente 3,4 milhões de multas aplicadas em rodovias com o sistema, estabeleceu prazo para regularização de débitos e interrompeu temporariamente a aplicação de novas penalidades. As concessionárias terão cem dias para ajustar seus sistemas.
Segundo ele, parte dos problemas decorre de falhas regulatórias das normas anteriores, editadas no último governo. O ministro disse que a centralização das cobranças e notificações pela Carteira Nacional de Habilitação (CNH) Digital deverá reduzir a inadimplência e aumentar a transparência para usuários e concessionárias. Além disso, a implantação plena do sistema poderá ajudar outras áreas, como segurança pública.