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Nordeste avança em ritmo acelerado com boom de investimentos e infraestrutura

29.06.2026 | | Notícias do Mercado

Fonte: Valor Econômico
Data: 29/06/2026

 

O Nordeste deve liderar a expansão da economia brasileira na próxima década, puxado especialmente pela atividade industrial e pelos investimentos em infraestrutura na região. A projeção é da Tendências Consultoria, que projeta expansão do Produto Interno Bruto (PIB) nordestino em 1,9% em 2026, 1,6% em 2027 e 3,3% ao ano entre 2028 e 2035. As estimativas de expansão do PIB brasileiro para os mesmos períodos são respectivamente de 1,6%, 1,3% e 2,4%. A Tendências avalia que o crescimento da região entre 2028 e 2035 irá superar o avanço do Norte e do Centro-Oeste, que lideraram o dinamismo econômico na última década e que deverão crescer 2,9% e 3%, respectivamente.

“O Nordeste está atraindo uma série de investimentos produtivos que vão gerar novas perspectivas de desenvolvimento”, diz a economista Camila Saito, responsável pelo estudo. O projeto de maior vulto é o da chinesa TikTok, que está construindo um data center orçado em R$ 200 bilhões em Caucaia (CE). Como comparação, o PIB cearense em 2025 foi de R$ 274 bilhões, calcula o Banco do Nordeste (BNB).

Investimentos em óleo, gás e combustíveis também são relevantes. A Petrobras anunciou em maio um projeto de R$ 60 bilhões em novas plataformas de petróleo em Sergipe e investe R$ 12 bilhões na expansão da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. A Noxis Energy prevê investir até R$ 10 bilhões em uma refinaria no Complexo do Pecém (CE), enquanto a Acelen desenvolve projetos de R$ 16 bilhões em combustíveis e biocombustíveis na Bahia.

A Stellantis aporta R$ 13 bilhões na expansão de seu polo automotivo em Goiana (PE), enquanto a BYD completa investimentos de R$ 5,5 bilhões em Camaçari (BA). E a Brazil Iron desenvolve um projeto de US$ 5,7 bilhões para produzir ferro briquetado a quente na Bahia. Na projeção da Tendências, a produção industrial nordestina deverá crescer 3,9% ao ano a partir de 2028.

Na área de infraestrutura, a ferrovia Transnordestina, que liga Eliseu Martins (PI) ao porto de Pecém (CE), deve ser concluída em 2028, após 22 anos de obras e investimentos de R$ 15 bilhões. Na Bahia, os trechos 1 e 2 da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) estão com mais de 60% de suas obras executadas. Os dois trechos somam 1.022 km ligando a região agrícola de Barreiras e a produção mineral em Caetité ao futuro Porto Sul, em Ilhéus, que demandará investimentos de US$ 1,46 bilhão, segundo o BNB. Em maio, o Ministério dos Transportes realizou o primeiro leilão rodoviário no Nordeste, com R$ 8,53 bilhões em melhorias nas BRs-116 e 324, entre Feira de Santana (BA) e Salgueiro (PE).

Na área portuária, projetos nos portos de Itaqui (MA), Suape (PE) e Pecém somam R$ 4 bilhões, de acordo com o BNB, que também elenca outros possíveis R$ 7 bilhões em infraestruturas em planejamento. O destaque é a posição geográfica privilegiada da região, mais próxima da Europa e dos Estados Unidos. “Contando com infraestrutura adequada, vai se posicionar como importante hub logístico do país”, diz Rogério Sobreira, economista-chefe do BNB.

A produção agrícola do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que já responde por 19% da soja brasileira, deve ser a principal beneficiada do avanço da infraestrutura logística nordestina, ganhando ainda mais competitividade no mercado internacional.

Outra vantagem é a capacidade de produção de energia renovável. A região conta com grande insolação durante todo o ano e ventos constantes e lineares, condições que a transformaram na principal produtora de energia eólica e fotovoltaica do país, com produção de 139 terawatt-hora (TWh) em 2025, dos quais 55% foram enviados para outras regiões, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O Nordeste é superavitário em energia renovável desde 2020.

A falta de infraestrutura de transmissão e a concentração da produção no período diurno, porém, levaram o ONS a realizar constantes “curtailments” – cortes forçados de geração de energia de fontes renováveis – desde 2024, gerando prejuízos que superam R$ 7 bilhões, segundo produtores, e paralisaram investimentos na expansão energética. A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) calcula que investimentos que somam R$ 14,5 bilhões saíram do pipeline em 2025. Para Sobreira, os cortes são uma situação circunstancial, que serão resolvidas com planejamento e expansão da capacidade de armazenamento e transmissão, mas não interrompem no médio prazo a trajetória de expansão do setor. “O mundo caminha em direção à transição energética, e o Nordeste é um dos principais polos produtores de energia renovável do mundo”, afirma.

O Nordeste está atraindo investimentos que vão gerar novas perspectivas”
— Camila Saito

A capacidade de geração renovável pode atrair investimentos de empresas que buscam descarbonizar seus processos produtivos, o chamado “powershoring”. “Hoje o Nordeste se posiciona como exportador de energia. Mas pode aproveitar sua sustentabilidade energética para atrair empreendimentos eletrointensivos”, diz o consultor Paulo Guimarães, sócio-diretor da Ceplan.

Data centers, biorrefinarias, indústrias químicas e metalmecânicas, siderúrgicas e produtores de hidrogênio verde são algumas das atividades que podem se beneficiar da energia renovável. “O que falta é o governo federal e os governos locais se articularem para apresentar o potencial de ‘powershoring’ do Nordeste para os investidores internacionais”, afirma Guimarães.

Mas não basta crescer acima da média; a região precisa diminuir as diferenças econômicas e sociais, afirma o economista Flávio Ataliba, coordenador do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste do Instituto Brasileiro de Economia (FGV- Ibre). “O Nordeste precisa melhorar seus indicadores de educação para obter maior produtividade e assim gerar um desenvolvimento consistente, sustentável e inclusivo”, diz.

Segundo o IBGE, 45,6% da população local concluiu a educação básica e 13% dos adultos têm diploma universitário. O nordestino tem o menor nível de produtividade do trabalho do país, com valor adicionado bruto (VAB) por pessoa ocupada de R$ 24 mil, contra R$ 46 mil da média nacional. A região concentra 26,82% da população do país, mas possui 13,83% do PIB nacional. O PIB per capita é de R$ 30,7 mil, a metade do nacional, nos cálculos do BNB, e 32,7% da renda domiciliar provém de aposentadorias e programas sociais, contra média de 25,1% no país, constata o FGV- Ibre.