02.03.2026 | ABIFER | Notícias do Mercado
Fonte: Portal Celulose Data: 27/02/2026
O Brasil vive uma fase histórica no desenvolvimento de sua logística ferroviária dedicada à indústria de celulose, um dos principais pilares da balança comercial nacional. A evolução das malhas de transporte está deixando de ser apenas uma pauta técnica para tornar-se um vetor estrutural de competitividade global, impulsionando investimentos bilionários, parcerias público-privadas, novas autorizações regulatórias e um reposicionamento estratégico das cadeias de suprimento. Neste cenário, ferrovias que ligam florestas, fábricas, terminais e portos se transformam em protagonistas de um novo ciclo de crescimento com foco em eficiência, sustentabilidade e redução de custos.
Se por um lado os modais rodoviários ainda dominam parte do transporte interno, a tendência é que a balança logística da celulose brasileira migre cada vez mais para os trilhos, graças a projetos que agregam escala e previsibilidade ao fluxo de carga. Nos últimos dois anos, iniciativas corporativas e governamentais ganharam impulso, sinalizando que a integração ferroviária entre os grandes polos produtores e os principais portos do país, especialmente o Porto de Santos (SP), não é mais uma promessa distante, mas uma realidade em construção.
ELDORADO BRASIL E O PRIMEIRO GRANDE PROJETO FERROVIÁRIO AUTORIZADO NO PAÍS
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa nova geração de investimentos é o projeto liderado pela Eldorado Brasil Celulose, que recebeu aporte de R$ 1,05 bilhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para construir uma ferrovia de 86,7 km ligando sua fábrica em Três Lagoas (MS) ao terminal ferroviário em Aparecida do Taboado (MS). Essa linha será integrada à Malha Norte, operada pela Rumo, abrindo um corredor ferroviário até o Porto de Santos e reduzindo drasticamente a dependência do modal rodoviário para escoar a produção.
O projeto, que se tornou o primeiro a ser concebido sob o novo regime de autorização ferroviária (diferente do modelo tradicional de concessões), também inclui a emissão de debêntures de infraestrutura, uma nova ferramenta prevista na Lei 14.801 e coordenada pelo próprio BNDES. Isso representa não apenas um avanço físico na logística da celulose, mas também uma inovação financeira que pode abrir caminho para outros investimentos em infraestrutura no Brasil.
A ferrovia deverá substituir aproximadamente 50 mil viagens de caminhões por ano, reduzir custos logísticos em escala e cortar emissões de dióxido de carbono em cerca de 105 mil toneladas anuais, um ganho relevante tanto para eficiência operacional quanto para compromissos ambientais das empresas.
MATO GROSSO DO SUL COMO EPICENTRO DE UMA NOVA MALHA FERROVIÁRIA PARA CELULOSE
Ao mesmo tempo, o estado de Mato Grosso do Sul, um dos maiores polos exportadores de celulose do país, deu início a outro projeto ferroviário estratégico no município de Inocência (MS): uma linha de 45 km que conectará a futura fábrica da Arauco Brasil à Malha Norte. Com um investimento estimado em aproximadamente R$ 2,4 bilhões, a pedra fundamental da ferrovia foi lançada em cerimônia com a presença de autoridades federais e deverá ser concluída até o segundo semestre de 2027.
O modelo adotado, conhecido como shortline, é focado em trechos curtos exclusivos para cargas específicas. neste caso, a celulose, e integra a produção diretamente à Malha Norte, facilitando o fluxo para exportação. A previsão é que a linha suporte composições com até 100 vagões, capaz de movimentar cerca de 3,5 milhões de toneladas por ano, consolidando o MS como um hub logístico essencial para o agronegócio e a indústria florestal brasileira.
Esse movimento, além de fortalecer a presença de grandes players internacionais no setor, como a Arauco, também sinaliza uma tendência de logística integrada, em que produção, transporte e exportação caminham de forma articulada para melhorar prazos, reduzir custos e ampliar a capacidade competitiva dos produtos brasileiros no mercado global.
O PORTO DE SANTOS E A CONSOLIDAÇÃO DO MODAL FERROVIÁRIO
O Porto de Santos, principal porto exportador do Brasil, tem observado um crescimento expressivo no volume de celulose movimentado por trilhos. Em 2024, cerca de 6,8 milhões de toneladas de celulose foram embarcadas por ferrovias, representando mais de 91% do total exportado pelo complexo portuário. Esse avanço reflete a consolidação do modal ferroviário como vetor prioritário no escoamento da produção nacional.
Essa integração entre ferrovias e infraestrutura portuária evidencia como o sistema logístico brasileiro está se adaptando às demandas do comércio exterior, estimulando investimentos em terminais especializados, pátios de manobra e equipamentos que aceleram o fluxo de cargas, especialmente quando se trata de produtos de alto valor agregado, como a celulose. Nesse contexto, terminais como o da Eldorado em Santos estão sendo equipados com guindastes, empilhadeiras e sistemas de manejo automatizado para tornar mais eficiente ainda o processo de exportação.
PROJETOS EM DISCUSSÃO E A VISÃO DE LONGO PRAZO
Além das ferrovias já em construção, há discussões em curso sobre novos corredores estratégicos que podem integrar ainda mais o interior produtivo ao litoral exportador. Esses debates envolvem desde a revitalização de linhas históricas abandonadas até novos trechos ferroviários que conectariam diferentes regiões do país, ampliando o alcance logístico e diversificando as rotas de escoamento para além do eixo tradicional Norte-Sul.
O governo federal e a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) têm intensificado conversas sobre a modernização e expansão da malha ferroviária no Brasil, incluindo o uso de novos modelos regulatórios, concessões e parcerias público-privadas para destravar esses projetos. A ideia é fortalecer o papel das ferrovias como principal modal de longa distância, superando barreiras históricas que até hoje limitam sua participação no transporte de cargas no país.
SUSTENTABILIDADE E LOGÍSTICA DE BAIXO CARBONO
Um dos aspectos mais relevantes dessa transformação logística é o seu impacto ambiental. Comparado ao transporte rodoviário, o modal ferroviário reduz significativamente as emissões de gases de efeito estufa por tonelada transportada, fortalecendo os compromissos de sustentabilidade das cadeias produtivas. Para empresas exportadoras de celulose, que frequentemente usam certificações de sustentabilidade como diferencial competitivo, essa redução de emissões se traduz em vantagem junto a mercados internacionais cada vez mais exigentes.
Além disso, a substituição de grandes volumes de cargas transportadas por caminhões diminui acidentes, alivia a pressão sobre as rodovias brasileiras e reduz custos operacionais, refletindo benefícios sociais e econômicos que ultrapassam o setor industrial.
PERSPECTIVAS PARA OS PRÓXIMOS ANOS
A expectativa para os próximos anos é que esses investimentos se consolidem e atraiam ainda mais projetos ligados não só à celulose, mas também a outros setores exportadores que dependem de soluções logísticas robustas para competir globalmente. A combinação de recursos públicos e privados, inovações em modelos regulatórios e o crescente interesse internacional em infraestrutura brasileira formam um cenário propício para que o país transforme sua matriz logística e alcance novos patamares de eficiência.
Assim, a logística ferroviária para o setor de celulose deixa de ser uma pauta secundária para tornar-se estratégica, conectando florestas plantadas, fábricas, terminais e portos em uma cadeia competitiva, sustentável e alinhada às demandas do comércio mundial.