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Frete e descasamento de preços afetam venda da próxima safra de soja

20.07.2018 | | Não categorizado

A dificuldade em precificar a soja no mercado futuro está reduzindo o ritmo das vendas antecipadas da próxima safra brasileira (2018/19), que começou mais acelerado. Segundo analistas, incertezas em relação aos fretes de transporte e o descasamento entre os preços internacionais e domésticos têm feito as tradings segurarem as compras do grão que começará a ser semeado em meados de setembro no país.

Na bolsa de Chicago, as cotações estão em queda em decorrência do bom desenvolvimento das lavouras americanas e da perspectiva de recuo nas exportações americanas à China por causa da guerra comercial entre Washington e Pequim, e essa mesma disputa mantém valorizados os prêmios pagos pela soja brasileira nos portos. Enquanto em Chicago os contratos com vencimento em agosto caíram de US$ 10,58 por bushel, no início de abril, para US$ 8,40 ontem, em Paranaguá (PR) o prêmio pelo bushel para entrega em agosto subiu de US$ 0,50 para US$ 2,35 na mesma comparação.

“A guerra comercial fez com que a correlação entre os preços locais e os preços internacionais se perdesse. Assim, as negociações futuras estão sendo impactadas”, afirmou Guilherme Bellotti, analista do Itaú BBA. Ele lembra que nesta época as tradings fecham negócios antecipados com os produtores brasileiros mas fazem hedge na bolsa de Chicago para evitar perdas com grandes oscilações de preços. “Quando você perde a referência, incorpora um elemento de risco muito grande nesse hedge”, afirmou.

Apesar de o descasamento de preços prejudicar a comercialização antecipada, para Enilson Nogueira, analista da consultoria Céleres, a nova tabela de fretes mínimos rodoviários para o transporte de cargas no Brasil continua a ser o principal entrave para os negócios.

A avaliação é confirmada por corretoras. De acordo com Vitor Minella, operador da Meneghetti Corretora de Cereais, de Campo Verde (MT), desde a paralisação dos caminhoneiros são poucos os negócios para a safra 2018/19. “Nas últimas semanas, nada da safra futura foi vendido por aqui. Não saiu nenhum negócio”, disse. Segundo ele, as multinacionais não estão pagando o que o produtor quer receber.

“Sei que até tem alguns negócios saindo em Primavera do Leste, por outras corretoras, mas coisa pequena e nada para multinacionais”, afirmou.

Os últimos dados disponibilizados pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), atualizados até o dia 6, evidenciam isso. As vendas antecipadas de soja da safra 2018/19 no Estado, que lidera a produção no país, avançaram só 0,18 ponto em relação ao mês anterior, ou 58,2 mil toneladas. Desde abril, as vendas vinham crescendo ao redor de 2 milhões de toneladas mensalmente.

No total, foram vendidas 6,8 milhões de toneladas da safra 2018/19 de Mato Grosso. Mesmo com a desaceleração, o percentual ainda é maior ao observado nesta mesma época do ano passado, quando estava em jogo a venda da safra 2017/18 e a comercialização antecipada estava em 3 milhões de toneladas graças a condições desfavoráveis do mercado.

Para Nogueira, da Céleres, o produtor conseguiria vender antecipadamente boa parte da safra de soja a ser semeada se houvesse uma definição melhor do custo com o frete. “Isso com boa rentabilidade”, disse. Estimativa de junho da consultoria apontou para margem de 33,8% para o produtor de soja em Rondonópolis (MT) em 2018/19, acima dos 31,6% do ciclo passado.

“As tradings não estão conseguindo saber qual vai ser a precificação do frete lá na frente, ou se essa tabela realmente será aplicada”, disse. A soja entregue agora está sendo retirada pelas tradings por um frete maior que o orçado quando foram efetivadas as compras. Nesse cenário, as margens das grandes tradings de grãos devem cair.

Segundo dados da Safras & Mercado atualizados até 6 de julho, as vendas da próxima safra brasileira de soja somam 18,03 milhões de toneladas, ou 15,1% de uma produção estimada em 119,787 milhões de toneladas. Mesmo com a perda de fôlego, trata-se de um ritmo ainda bem maior que no mesmo período do ano passado, quando o percentual estava em 5,1%, e acima da média dos últimos cinco anos (11%).

“Mas já vimos um ritmo mais lento de compra pelas tradings na primeira quinzena de julho. Elas estão com pé atrás”, afirmou Luiz Fernando Roque, analista da Safras & Mercado.

Fonte: Valor Econômico
Data: 19/07/2018