Av. Paulista, 1313 - 8º andar - conjunto 801 (11) 3289-1667 abifer@abifer.org.br
pt-bren

Integração ferroviária deve beneficiar os consumidores

17.05.2006 | | ABIFER News

Se a ferrovia Transnordestina de fato sair do papel, isso pode trazer benefícios diretos aos consumidores. Em um primeiro momento, os investimentos podem ajudar a reduzir custos de produção, com reflexos nos resultados das empresas. Em um segundo momento, a ferrovia facilitaria a circulação de matérias-primas, insumos e produtos, contribuindo para o aumento da concorrência e a redução dos preços finais ao consumidor. “O quadro atual desarticula o processo de produção, posterga decisões de investimento produtivo e atinge a competitividade das exportações”, analisa Jorge Mello, diretor da CFN. A multinacional Bunge Alimentos, por exemplo, reclama que desperdiça recursos incentivando a ida de caminhões até a região de Uruçuí, no sul do Piauí, por conta das estradas. Na avaliação da empresa, se não houvesse essa necessidade, os mesmos recursos poderiam girar a economia da cidade, estimulando o crescimento dos produtores e região. “O gasto com logística é o nosso segundo maior custo. Temos que pagar ágio para o caminhoneiro aceitar apanhar as cargas, pois é quase certo ter problema com manutenção. Normalmente, o custo do quilômetro rodado é R$ 1,20. Aqui, se paga R$ 1,57”, compara Wallison Cavazzani, gerente industrial em Uruçuí. Caso a ferrovia saia do papel, a empresa pode ser uma das principais beneficiárias. É que o óleo de soja esmagado em Uruçuí percorre cerca de mil quilômetros até a fábrica de Suape, onde está localizada a única unidade de refino de derivados do Nordeste. A unidade industrial de Suape, em Ipojuca, produziu 9,3 mil toneladas de margarina, em dezembro de 2005. O empresário paranaense César Borges, dono da Caramuru Alimentos – um dos maiores grupos brasileiros de industrialização de grãos, com matriz em Itumbiara (Goiás), operando 60 unidades nos Estados de Goiás, Paraná, Mato Grosso, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Ceará –, observa que o volume de produção no Nordeste, de 100 mil toneladas por ano de soja esmagadas em Petrolina, vindas do oeste da Bahia, ainda não justificaria o investimento na Transnordestina, mas a ferrovia será sempre a maneira mais racional e competitiva de distribuição em longas distâncias. “Vamos continuar usando o Porto de Santos para escoar a produção do Centro-Oeste (Mato Grosso e Goiás), mas não resta dúvida de que nas cargas com origem no Nordeste o projeto pode trazer grandes benefícios. Sem dúvida, isso ocorrerá porque o transporte ferroviário para longas distâncias é mais econômico”, declara o empresário. Em Goiás, a Caramuru, uma empresa totalmente nacional, chega a bater a multinacional Bunge nas exportações, com US$ 209 milhões. São processadas 1,7 mil toneladas por dia. No pólo de Juazeiro e Petrolina, o processamento de soja atinge 400 toneladas/dia. No Ceará, os avicultores não têm dúvidas das vantagens econômicas do projeto. O diretor da Associação Cearense de Avicultura (Aceav), Mardem Alencar, diz que a obra é de fundamental importância para o futuro do setor. “Nós almejamos que a obra seja feita para podermos reduzir custos. A opção pela rodovia tem um custo muito alto e o trem pode mudar isso. Com a chegada do milho e da soja do Piauí e do Maranhão, mais baratos, poderemos baixar o preço final do ovo, do frango e do suíno na região. A população é que vai agradecer”, diz o empresário. Devido à proximidade, o Piauí é o principal fornecedor de insumos para ração do Ceará, mas a Bahia também chega a fornecer para o Estado. O consumo das granjas soma cerca de 35 mil toneladas por mês, sendo de 10 a 12 mil toneladas de soja da Bahia, segundo o produtor cearense. A Associação dos Irrigantes e Agricultores do Oeste da Bahia (Aiba) reclama que a avicultura e a suinocultura são setores dormentes. O diagnóstico é que sobram grãos e faltam cadeias produtivas para consumo local. “Boa parte do milho vem do Centro-Oeste. Com a ferrovia, passaria a vir mais milho da própria região”, acredita o empresário cearense Mardem Alencar, para quem a facilidade da ferrovia iria estimular mais ainda a produção de milho no Nordeste. “A obra é muito importante. Ela vai favorecer a indústria de frangos, que precisa dos grãos daqui, e a indústria têxtil, que precisa do algodão”, destaca o produtor de soja João Hoppe, com fazenda de soja no sul do Piauí. Em Pernambuco, o empresário Carlos Lyra, um dos donos da Mill Alimentos, diz que a ferrovia ajudaria a melhorar a logística de produção das empresas de alimentos locais, que poderiam separar e vender o farelo do milho para ração animal e importar das áreas produtoras apenas a chamada canjica de milho, usada na alimentação humana. Comprando hoje cerca de 100 mil toneladas de milho por ano na região de Barreiras, a empresa local planeja montar uma unidade industrial para processamento naquele município baiano. “Até o final do ano teremos armazém lá. No ano que vem, produção. Com a expansão, vamos fazer na Bahia o mesmo que fazemos aqui, de forma mais competitiva. Inicialmente, vamos trazer de caminhão a canjica, mas vemos com bons olhos a opção ferroviária, se ela estiver disponível”.