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Monotrilho da Linha 15 esvazia linhas de ônibus da Zona Leste

14.01.2020 | | Notícias do Mercado

Mesmo com um serviço ainda precário, ramal do metrô tem atraído passageiros na região, um fenômeno que se repete em outras linhas e que deveria ser comemorado

 

O monotrilho da Linha 15 e abaixo dele, um ônibus municipal: trem está atraindo demanda, o que é para se comemorar (GESP)

A manchete do jornal Agora, pertencente à Folha de São Paulo, em matéria neste sábado alertou: “Ônibus perdem 4 em cada 10 passageiros com o monotrilho em SP”. A “linha fina”, texto que complementa o título, reforça um pouco mais o viés negativo ao afirmar que a “abertura de novas estações afeta linhas que passam na avenida Anhaia Mello, na zona leste”.

Sim, meus caros, na grande imprensa não se pode abordar um fato pelo seu ângulo positivo mesmo que ele signifique mais qualidade de vida ou menos poluição no ar, como é o caso da natural atração da Linha 15-Prata em relação aos ônibus que circulam. Pelo contrário, o fato de boa parte dos passageiros ter decidido mudar de modal é visto como um problema, afinal temos ônibus rodando vazios na região.

É verdade que, ao abordar a letargia da prefeitura de São Paulo em remanejar linhas que perderam demanda e o fato de que na capital paulista as viações ganham transportando ou não passageiros sejam problemas que deveriam ser resolvidos, mas isso é um efeito colateral de uma melhoria na mobilidade. Mesmo ainda distante de ter um serviço estável, a Linha 15-Prata já impacta positivamente a vida de milhares de pessoas na Zona Leste, número que vai triplicar nos próximos meses após a abertura das estações Sapopemba, Fazenda da Juta e São Mateus.

Não é vergonha alguma admitir isso, daí o título desse artigo enxergar o “copo meio cheio” em vez de “meio vazio”. Sim, o fato em si é o monotrilho ganhar passageiros dessas linhas e não estas perderem usuários, afinal de contas a capital paulista mantém uma rede de transporte por ônibus que faz o papel do trem justamente pela ausência de uma rede sobre trilhos à sua altura. A situação só não é mais contrastante porque ônibus e trens são tratados como rivais e não como complementos de um mesmo sistema.

Se o ônibus assumisse seu papel de alimentador em regiões onde há linhas de metrô e trem não haveria tanta distorção. No entanto, em São Paulo corredores sobrevivem por conta do custo extra para usar ônibus+metrô, por exemplo. Embora a integração tenha algum desconto dependendo de alguns fatores, é um valor que a maior parte dos usuários não pode bancar e acaba seguindo viagem dentro desses veículos mesmo perdendo um tempo precioso de seu dia.

No entanto, quando a linha de ônibus faz praticamente o mesmo percurso do trem a queda de usuários nos últimos anos onde foram abertas novas estações é enorme, como mostrou o jornal ao chegar aos números apresentados no texto. A linha 5110-23, que liga Jardim Planalto até o Mercado Municipal, citada pelo Agora, perdeu metade dos usuários entre 2019 e 2018. Quando olhamos para o movimento no final de novembro, esse número é até superior: queda de 60% na demanda.

Um dia a mais por mês de tempo livre

Linha 5 do Metrô: ir do Largo 13 até Santa Cruz em metade do tempo já fez linha de ônibus perder 70% do seu movimento

O fenômeno não é isolado. No eixo onde hoje circula a Linha 5-Lilás que, desde o final de 2018, está conectada às linhas 1-Azul e 2-Verde, há linhas de ônibus ainda mais afetadas como é o caso da 675L-10, que sai do Terminal Santo Amaro e faz ponto final no terminal Santa Cruz. Se em novembro de 2017, essa linha de ônibus transportou 16,9 mil pessoas na última sexta-feira do mês, um ano depois esse volume havia caído para 6 mil usuários e no mesmo período do ano passado, para somente 4,8 mil passageiros, uma queda de 71% em dois anos.

Até mesmo na Linha 4-Amarela, que ainda não atende regiões mais periféricas, o impacto da chegada do ramal até a estação São Paulo-Morumbi já refletiu em queda em linhas de ônibus importantes do corredor da avenida Francisco Morato. É o caso das linhas 8700 que vão de Campo Limpo ao centro da capital paulista. Em 2017, em um dia de novembro, elas levaram cerca de 42 mil passageiros e dois anos depois esse número havia se reduzido para 34 mil usuários, uma queda de 18%, aproximadamente. Quando a estação Vila Sônia for inaugurada, entre o final deste ano e início de 2021, essa demanda certamente sofrerá outro impacto.

A explicação é óbvia: metrô e trens têm em geral um serviço muito superior, seja em acessibilidade, segurança, limpeza e, sobretudo, velocidade. Quem embarca na estação São Paulo-Morumbi e segue até República ganha 26 minutos em relação ao corredor de ônibus, segundo informações do Google Maps. Já quem decide embarcar na estação Largo 13 da Linha 5 com destino à Santa Cruz economiza em média 28 minutos comparado ao ônibus, ou seja, faz o mesmo trajeto em metade do tempo. Dependendo do local de embarque, um passageiro que antes levava 90 minutos entre a região de São Mateus e o centro hoje pode gastar menos de uma hora.

Em uma conta simples, uma pessoa que economize uma hora diariamente para ir e voltar do trabalho terá conseguido acumular quase um dia inteiro por mês. É uma conta que mostra claramente como o transporte sobre trilhos é imprescindível para São Paulo, mesmo que o custo de implantá-lo seja alto em números absolutos. Os benefícios, no entanto, são enormes e mais duradouros, como muita gente está começando a descobrir, felizmente.

 

Fonte: Metrô/CPTM

Data: 13/01/2020