13.01.2026 | ABIFER | Notícias do Mercado
Fonte: O Globo Data: 11/01/2026
O governo federal pretende realizar 14 leilões de concessão de rodovias e oito de ferrovias este ano, com investimento estimado em quase R$ 300 bilhões ao longo dos contratos. A entrada cada vez maior do BNDES na oferta de financiamento dos projetos é a principal aposta para destravar as licitações no ano eleitoral. A previsão é que o banco tenha fechado 2025 com volume de R$ 22 bilhões destinados a rodovias e mais R$ 3,7 bilhões a ferrovias. A meta é superar esses valores em 2026.
A carteira de projetos do Ministério dos Transportes aponta que o BNDES ficará responsável pela estruturação de leilões e operação financeira de projetos de quatro licitações programadas para 2026. São: Rota dos Sertões (BR-116, entre Bahia e Pernambuco); Rotas Gerais (BRs 116 e 251 em Minas Gerais); Rota Agro Central (BRs 070/174/364 entre Mato Grosso e Rondônia) e Rota Integração do Sul (BRs 116/158/290/392 no Rio Grande do Sul). O cardápio de licitações de ferrovias também está no radar da instituição.
O secretário executivo do Ministério dos Transportes, George Santoro, disse que é “zero” a preocupação com a proximidade do calendário eleitoral. Pode haver, porém, algum atraso no cronograma dos leilões por causa do aumento de demandas ao Tribunal de Contas da União (TCU), que precisa autorizar as licitações, admitiu.
Santoro afirmou, contudo, que a modelagem das concessões do setor está consolidada com aperfeiçoamentos para evitar erros do passado, como falta de análise adequada de risco e projeções irreais de receitas. Além disso, a engenharia financeira formatada pelo BNDES contém mecanismos para driblar o efeito da flutuação da taxa de juros, como troca de dívidas, o que oferece maior tranquilidade ao investidor, destacou.
— O BNDES acaba ancorando as expectativas do mercado. O banco tem uma equipe especializada em infraestrutura muito experiente e quando apoia um projeto, atrai investidores privados — disse o secretário.
‘Projetos que se pagam’
Para Santoro, embora o BNDES atue conforme as condições de mercado, o banco tem sido “ousado” na oferta de crédito. A instituição alterou regras na política de crédito e garantias, ampliou a flexibilidade operacional e o apetite a risco. Com isso, o órgão passou a assumir mais riscos de projeto, viabilizando o apoio a empreendimentos que demandam elevados volumes de investimento.
A diretora de Infraestrutura e Energia do BNDES, Luciana Costa, explica que o foco do banco nas concessões é financiar projetos que se pagam, como a rodovia em que o pedágio é a fonte primária de recursos para quitar o financiamento. Todos os riscos envolvendo o empreendimento são mensurados, antes do início da obra. Cada projeto tem um pacote de garantias, destacou.
— Diferentemente do passado, em que o financiamento era ao concessionário, o banco agora corre mais risco do projeto. Isso vem acontecendo desde 2023 e vem ganhando força porque os leilões continuam fortes — disse a diretora.
A executiva afirmou não acreditar em prejuízos para o BNDES porque os projetos são bem estruturados. Além disso, em caso de imprevistos, os contratos contêm outras possibilidades, como entrada de fluxos de receita e até carta fiança, se for o caso.
O Ministério dos Transportes encerrou 2025 com a realização de 22 leilões nos últimos três anos, sendo quatro deles em regime simplificado por se tratar de contratos de concessões já existentes, que apresentaram problemas e foram reformulados.
Para este ano, a previsão é licitar mais seis rodovias nesse sistema, em que o atual concessionário participa do leilão e pode manter a concessão se não aparecer outro investidor interessado: Regis Bittencourt (BR-116, entre São Paulo e Paraná); Rota Arco Norte (BR-163, entre Mato Grosso e Pará); Rota do Pequi (BR-060 entre Goiás e Distrito Federal; Rota Litoral Sul (BRs 116/375 no Paraná e BR 101 em Santa Catarina; Rota Planalto Sul (BR-116 entre Paraná e Santa Catarina) e Rota Transbrasiliana (BR-153 em São Paul).
A concessão de outras quatro rodoviárias a serem licitadas este ano está sob a responsabilidade da Infra S.A, estatal resultante da fusão Valec-EPL: Rota Portuária do Sul (BRs 116/392 no Rio Grande do Sul); Rota 2 de Julho (BRs 116/324 na Bahia); Rodovias Integradas de Santa Catarina, lote 2 (BRs 153/282/470); Rodovias Integradas de Santa Catarina, lote 3 (BRs 153/282/480).
Segundo estimativas dos Transportes, os 14 leilões de rodovias vão gerar um investimento de R$ 158 bilhões ao logo dos contratos, entre 25 anos e 30 anos.
Transporte de passageiro
João Paulo Pessoa, advogado sócio do Toledo Marchetti Advogados e especialista no setor de infraestrutura, faz um balanço positivo dos modelos de leilões adotados durante o governo Lula. Segundo ele, os financiamentos do BNDES garantem mais segurança jurídica para que as empresas nacionais possam concorrer nos certames.
— Isso contribui sem dúvida para a concorrência nos próximos leilões. Acho que 2026 tem tudo para continuar o movimento positivo dos leilões de rodovias vistos em 2025. As ferrovias tiveram um ano mais ameno em 2025, mas também devem ganhar tração.
Já a concessão de oito ferrovias este ano e mais uma em 2027 tem potencial para gerar um investimento de R$ 140 bilhões. Estão na carteira do Ministério: Corredor MG-RJ; Anel Ferroviário Sudeste; Malha Oeste; Corredor Leste Oeste, Ferrogrão; Malha Sul (Corredor PR/SC); Malha Sul (Corredor Rio Grande); Malha Sul (Corredor Mercosul) e Extensão Norte (Ferrovia Norte/Sul).
Também faz parte do cardápio a licitação de ferrovias de transporte de passageiros em 2026. A primeira será a ligação entre Brasília e Luziânia.
Compartilhar riscos
O diretor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Transportes, Marcus Quintella, considera positiva a atuação do governo para acelerar as concessões de rodovias e ferrovias. Ele destacou que o investidor privado só entra em projeto que traz retorno ao capital aplicado e gera lucro. Há ativos, disse, que não têm atratividade e, neste caso, é preciso a participação do Estado para compartilhar riscos do projeto, como de engenharia, ambiental e político, dentre outros.
Quintella citou o resultado da pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), segundo a qual, 62% das rodovias brasileiras estão em péssimo estado.
— O Estado não tem dinheiro para fazer investimentos e isso não vai mudar tão cedo. É preciso aperfeiçoar os modelos de concessão para atrair o capital privado — disse.
Letícia Queiroz, sócia do Queiroz Maluf Reis, que acompanha o processo das concessões desde o início, afirmou que a política do setor passou por mudanças ao longo dos anos e se transformou em política de Estado.
— A modelagem vem sendo aperfeiçoada nos vários governos. Os projetos estão cada vez melhores, a matriz de risco bem detalhada, com potencial para atrair novos players. A gente pode ver isso nos últimos leilões — disse Letícia, acrescentando que também considera positiva a atuação do BNDES, sobretudo no caso de ferrovias, diante da complexidade desse tipo de modal, que exige um forte investimento inicial.