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Plano Nacional de Ferrovias injeta R$ 100 bi e redesenha a espinha logística brasileira

01.06.2026 | | Notícias do Mercado

Fonte: O Cafezinho
Data: 31/05/2026

Quando a técnica organiza o espaço, a sociedade ganha tempo para viver. Essa máxima, que poderia ter saído de um tratado de urbanismo europeu do século XX, encontra nos trilhos sua tradução mais concreta e duradoura.

Ferrovias e metrôs não são apenas meios de transporte: são instrumentos de ordenamento territorial que determinam onde as pessoas moram, onde trabalham e como a produção chega aos mercados. O Brasil, depois de décadas negligenciando esse princípio elementar, começa a reverter o erro com um volume de investimentos que não se via desde os anos 1950.

O Novo PAC, lançado pelo governo federal, reservou R$ 94,2 bilhões até 2026 para projetos ferroviários, conforme detalhou o Ministério dos Transportes em balanço oficial. O país que erradicou ramais e apostou cegamente no caminhão durante meio século agora ensaia reconstruir sua malha com a ambição de saltar de 17% para 40% das cargas movimentadas por trilhos até 2035.

Ao mesmo tempo, o Plano Nacional de Ferrovias articula uma carteira de concessões que soma aproximadamente R$ 100 bilhões em investimentos privados e públicos, com cinco grandes projetos já definidos. O anúncio foi feito após reunião entre o ministro Renan Filho e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conforme registrou a CNN Brasil na cobertura do lançamento da iniciativa.

A lógica é simples e brutal: o custo logístico brasileiro consome cerca de 12% do PIB, contra 8% nos Estados Unidos, e essa diferença é paga por cada produtor rural, cada indústria e cada consumidor. O transporte ferroviário de carga é três vezes mais eficiente energeticamente que o rodoviário e emite até 70% menos gases de efeito estufa por tonelada-quilômetro transportada.

No coração do plano está a Ferrovia de Integração Oeste-Leste, a FIOL, com seus 1.527 quilômetros de trilhos em bitola larga entre Ilhéus e Caetité, no interior da Bahia, com projeção de conexão futura à Ferrovia Norte-Sul em Barreiras. A obra, dividida em três trechos, enfrenta o clássico desafio brasileiro de execução: o Trecho 1 avança sob responsabilidade da Bamin, o Trecho 2 está em obras com 65% de conclusão, e o Trecho 3 ainda aguarda licença de instalação, como documentou reportagem do Click Petróleo e Gás.

O contraste internacional é pedagógico e doloroso: a China constrói 2.400 quilômetros de ferrovias de alta velocidade por ano, enquanto o Brasil levou mais de três décadas para avançar com a Ferrovia Norte-Sul. Com seus 2.257 quilômetros entre Açailândia (MA) e Estrela d’Oeste (SP), a Norte-Sul se conecta à Malha Paulista e permite que Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais escoem commodities tanto pelo Arco Norte, via Porto de Itaqui, quanto pelo Sudeste.

Infra S.A., estatal responsável pelo planejamento ferroviário, mantém uma carteira que inclui ainda a FICO (Ferrovia de Integração do Centro-Oeste), com seus 1.720 quilômetros projetados entre Mara Rosa (GO) e Vilhena (RO), e o Corredor Ferroviário de Santa Catarina, que conectará Itajaí a Dionísio Cerqueira. Cada um desses projetos é uma peça de engenharia que, quando encaixada, altera permanentemente o mapa econômico da região que atravessa.

A geografia econômica brasileira foi desenhada ao longo do século XX para privilegiar o caminhão e o transporte individual, gerando cidades espraiadas, alto custo de deslocamento e dependência de combustíveis fósseis importados. A Ferrogrão, com seus 933 quilômetros entre Sinop (MT) e Itaituba (PA), é a tentativa mais ambiciosa de corrigir essa distorção no Arco Norte, conectando o maior polo agrícola do planeta a portos oceânicos sem passar pelo gargalo rodoviário do Sudeste.

O Anel Ferroviário do Sudeste, outro projeto do plano, ligará Vitória (ES) a Itaboraí (RJ) com aproximadamente 300 quilômetros de trilhos, integrando as malhas da Vale (Estrada de Ferro Vitória-Minas) e da MRS Logística. Trata-se de uma conexão aparentemente modesta em extensão, mas de impacto logístico desproporcional: ela elimina um dos principais pontos de estrangulamento da malha sudestina e cria redundância operacional para o transporte de minério e cargas industriais.

Já a Transnordestina, com seus 1.200 quilômetros entre Eliseu Martins (PI) e o Porto de Pecém (CE), representa o drama e a resiliência da infraestrutura brasileira. Prometida em 2010 e paralisada por anos, a ferrovia recebeu novo aporte de R$ 175 milhões em 2023 e atingiu 60% de avanço físico, com previsão de conclusão entre 2026 e 2027, cortando 53 municípios do Piauí, Ceará e Pernambuco.

O transporte de passageiros, historicamente abandonado no Brasil desde a erradicação de ramais nas décadas de 1960 e 1970, também volta à pauta com a Política de Transporte Ferroviário de Passageiros, cuja minuta de decreto recebeu contribuições da sociedade até janeiro. A proposta é aproveitar a malha existente, hoje majoritariamente dedicada a cargas, para reintroduzir trens regionais e interestaduais — um modelo que países como Alemanha, Itália e Japão operam com sucesso há décadas.

O setor emprega atualmente 66 mil trabalhadores, número que tende a crescer com a expansão dos canteiros de obras e a futura operação das novas ferrovias. A capilaridade dos trilhos promove qualificação e renda em regiões historicamente estagnadas, gerando um ciclo virtuoso que vai muito além dos dormentes e bitolas.

A dúvida que paira sobre todo o plano não é técnica, mas política: se haverá continuidade nos próximos governos para concluir o que começa agora. A Ferrovia Norte-Sul consumiu mais de três décadas para se materializar, atravessando mandatos de todos os espectros, e só avançou porque a pressão do agronegócio e da balança comercial tornou o custo da inação maior que o custo da obra.

O Brasil investe apenas 2,24% do PIB em infraestrutura, metade do necessário para manter e expandir sua base logística, e o setor privado já responde por 72% dos aportes totais. O Novo PAC tenta reequilibrar essa conta com recursos públicos direcionados a projetos que, sozinhos, o mercado não financiaria — mas a escala da demanda exigiria multiplicar esses valores por três ou quatro.

O que está em jogo não é apenas a velocidade com que um contêiner de soja chega ao porto, mas a própria organização do território brasileiro nas próximas cinco décadas. Cada quilômetro de trilho que avança no mapa redefine preços de terra, rotas de escoamento, localização de indústrias e até o traçado de cidades — exatamente como os trilhos fizeram na Europa, no Japão e na China.