20.08.2026 | Assessoria de Imprensa | Notícias do Mercado
Fonte: Valor Econômico Data: 19/08/2026
O pipeline de concessões federais de infraestrutura inclui quatro ferrovias e duas hidrovias com potencial de proporcionar grande impacto na competitividade do setor mineral. “São projetos que podem reduzir em até 50% o custo logístico de mineradoras que hoje dependem principalmente do modal rodoviário para escoar a produção”, diz Adriano Viana Espeschit, diretor-executivo da J.Mendo Consultoria. “A oferta de logística adequada também pode viabilizar a lavra de minas que hoje são inativas.”
Enquanto as mineradoras que movimentam grandes volumes de minério de ferro e bauxita possuem infraestrutura própria, com ferrovias dedicadas, minerodutos, navios de cabotagem e terminais portuários privativos, as de médio e pequeno porte ou aquelas que movimentam minerais que não geram grandes volumes estão expostas aos mesmos desafios logísticos que afetam a competitividade de toda a economia brasileira. De acordo com o Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), o custo logístico no Brasil equivale a 15,6% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a média entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 8,4%.
“Mineração é extração e logística. É uma atividade que tem muita dificuldade de se viabilizar quando não há meios eficientes de escoamento da produção”, diz Pablo Cesário, diretor-presidente interino do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). “Podemos ter uma atividade mineral mais diversificada e intensa, se o país disponibilizar uma boa infraestrutura logística”, afirma.
No programa federal de concessões, um dos principais projetos de interesse do setor mineral é a implementação do Corredor Leste-Oeste, formado pela Ferrovia de Interligação do Centro-Oeste (Fico) e pela Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), que interligará Lucas do Rio Verde (MT) com o futuro Porto Sul, em Ilhéus (BA). O Ministério dos Transportes prevê realizar o leilão de licitação em dezembro de 2026.
“É um projeto que vai viabilizar a expansão da produção de minério de ferro e outros minerais na Bahia e reduzir os custos do escoamento de lítio de Minas Gerais”, diz Cesário. A Bahia é o terceiro maior produtor mineral brasileiro e conta com investimentos programados no setor de US$ 11,7 bilhões até 2030, segundo o Ibram. No Estado, a Fiol poderá apoiar a logística de produtores de minério de ferro, níquel, manganês, cobre e urânio.
A Bamin desenvolve um projeto de extração de 26 milhões de toneladas anuais de minério de ferro em Caetité que depende da nova ferrovia para ser viável. Em 2021, a mineradora assumiu a concessão da etapa 1 da Fiol, trecho de 537 quilômetros (km) entre Caetité e o Porto Sul, obra que também é de responsabilidade da mineradora.
Atualmente, a construção da Fiol 1 está paralisada, após 75% de execução das obras físicas. O controle da Bamin está em fase final de aquisição pelo grupo português Mota-Engil, que dará continuidade à obra logística.
A britânica Brazil Iron também depende da Fiol para viabilizar um investimento de US$ 5,7 bilhões para a produção de ferro briquetado a quente (HBI, na sigla em inglês), que apresenta pureza superior a 93%. O projeto contempla a extração de minério de ferro em Piatã (BA) e uma unidade de beneficiamento nas proximidades do Porto Sul, em Ilhéus, com capacidade para 5 milhões de toneladas por ano de HBI. Segundo Emerson Souza, vice-presidente de relações institucionais da companhia, será construído um ramal ferroviário privado de 120 km para o transporte do minério de Piatã até a linha férrea. A previsão da Brazil Iron é iniciar a fase operacional em 2030.
Em Mato Grosso do Sul, importante produtor de minério de ferro e manganês extraídos do Maciço de Urucum, nas proximidades de Corumbá, uma das principais mineradoras da região, a LHG Mining, do grupo J&F, desenvolve um plano de expansão que pretende dobrar sua capacidade de produção de minério de ferro para 25 milhões de toneladas por ano até 2030. A produção sul-mato-grossense é escoada principalmente pelo rio Paraguai, em barcaças que percorrem por volta de 2,7 mil km, até o embarque internacional em portos argentinos e uruguaios no rio da Prata. Em 2025 foram transportados 9 milhões de toneladas de minérios pela via fluvial. Em 2024, ano de grande estiagem, o transporte limitou-se a 3 milhões de toneladas.
“É uma via fluvial que sofre muito em períodos de seca, carece de dragagem, boa sinalização e manutenção constante para ser operacional o ano todo”, diz Espeschit. A manutenção da via depende do orçamento federal. O plano do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) é repassar a tarefa para a iniciativa privada, com a concessão da Hidrovia do Paraguai, um trecho fluvial de cerca de 600 km no Mato Grosso do Sul, entre Corumbá/Ladário até a foz do rio Apa, em Porto Murtinho.
A proposta de concessão foi encaminhada ao Tribunal de Contas da União (TCU), com previsão inicial de leilão em 2026. O processo foi interrompido por falta de consulta prévia aos governos do Paraguai e da Bolívia, países que também margeiam o rio Paraguai. A expectativa é que seja retomada em 2027.
A produção mineral sul-mato-grossense também poderá ser beneficiada pela relicitação da Ferrovia Malha Oeste. São 1.973 km de trilhos que ligam Corumbá a Mairinque (SP), onde se conecta à Malha Paulista, da Rumo Logística, que segue até o Porto de Santos (SP). Atualmente a Malha Oeste é subutilizada. O contrato de concessão de 30 anos em vigor se encerra em 2026 e não há interesse de renovação da atual concessionária, a Rumo. O Ministério dos Transportes programa leilão para novembro.
O Pará, que concentra 35% da produção mineral brasileira, soma investimentos programados em expansão mineral de US$ 19,6 bilhões até 2030, segundo o Ibram. Minério de ferro, cobre, bauxita, ouro, caulim, manganês e níquel são as principais substâncias. O Estado também é importante produtor de ferro-gusa e produtos siderúrgicos. A principal via de escoação da produção é a Estrada de Ferro Carajás (EFC), investimentos programados em expansão mineral de US$ 19,6 bilhões até 2030, segundo o Ibram. Minério de ferro, cobre, bauxita, ouro, caulim, manganês e níquel são as principais substâncias. O Estado também é importante produtor de ferro-gusa e produtos siderúrgicos. A principal via de escoação da produção é a Estrada de Ferro Carajás (EFC), MPor chegou anunciar o leilão da hidrovia em 2026, mas o plano foi adiado para 2027 após contestações de povos indígenas e ribeirinhos da região. “A extensão da FNS e a Hidrovia do Tocantins vão gerar concorrência à EFC e reduzir custos”, diz Espeschit. Segundo o consultor, hoje o produtor mineral de médio porte do Pará tem poucas oportunidades de acesso à EFC, que privilegia o escoamento da Vale, e enfrenta custos elevados.
Outra concessão aguardada pelo setor mineral é o Anel Ferroviário Sudeste (EF-118), com leilão previsto para setembro. São 571 km de trilhos que ligarão Nova Iguaçu (RJ) a Santa Leopoldina (ES), conectando a malha Sudeste da MRS Logística, que atende a região do Quadrilátero Ferrífero em Minas, a Estrada de Ferro Vitória a Minas, da Vale, e os portos Açu e Itaguaí, no Rio de Janeiro, e os portos de Vitória e Ubu, no Espírito Santo. Minério de ferro, gusa e aço são os principais produtos que deverão ser transportados pela ferrovia.
As mineradoras também programam projetos logísticos próprios. Em Minas Gerais, a Cedro Mineração planeja expandir sua produção de minério de ferro para 20 milhões de toneladas até 2032. Metade deverá vir de uma mina em Mariana, onde a companhia planeja instalar uma correia transportadora de quase 20 km de extensão que ligará a mina à Estrada de Ferro Vitória a Minas, com capacidade para transportar 10 milhões de toneladas anuais. “É um projeto de baixo impacto ambiental, que utiliza energia elétrica renovável, e com um custo operacional baixo”, diz José Carlos Martins, presidente do conselho da Cedro.
A estratégia logística da Cedro também prevê um investimento de R$ 3,6 bilhões para a construção de um terminal portuário próprio, o Porto do Meio, em Itaguaí (RJ), com capacidade para movimentar 20 milhões de toneladas por ano. Hoje a Cedro comercializa sua produção no mercado interno. “Com o aumento da produção e uma logística adequada, vamos participar do mercado internacional”, diz Martins.
Nos planos da Cedro também está a construção de um ramal ferroviário de 26 km de extensão, o Serra Azul, que ligará Mateus Leme a Mário Campo, Minas Gerais, onde fará conexão com a Malha Sudeste da MRS. O investimento é de aproximadamente R$ 2 bilhões. Serra Azul não transportará minério da Cedro, mas de seis mineradoras da região do quadrilátero ferrífero mineiro, que hoje dependem de caminhões para escoar a produção.