08.10.2026 | Assessoria de Imprensa | Notícias do Mercado
Fonte: Valor Econômico Data: 08/10/2026
Após uma sequência intensa de leilões e com a perspectiva de que a oferta de novos ativos perca força após o ciclo atual, o mercado de infraestrutura volta suas atenções para uma nova frente de crescimento: a venda de participações, que ganha espaço na agenda de investidores e operadores. A estimativa de mercado é que as operações de fusões e aquisições (M&As, na sigla em inglês) de infraestrutura e energia representem 60% do volume total de transações.
Hoje, os ativos disponíveis no mercado incluem a plataforma de infraestrutura da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional); a Rumo, da Cosan; o Porto Sudeste, de Mubadala e Trafigura; a Codesa (Companhia Docas do Espírito Santo), da Quadra Capital; a divisão de trilhos da Motiva (ex-CCR), entre outros, segundo fontes.
“A infraestrutura tem sido o carro-chefe das M&As (fusões e aquisições, na sigla em inglês) no Brasil. São operações de grande porte, muitas com compradores estrangeiros”, diz Antônio Coutinho, responsável pelo banco de investimento do Citi no país.
“O setor de infraestrutura todo continua bastante aquecido, em segmentos como portos, rodovias, aeroportos, ferrovias. Tem ainda bastante coisa pra sair neste ano”, afirmou Mauro Penteado, sócio e especialista de infraestrutura e energia do Machado Meyer.
O movimento ocorre em um momento de expansão do mercado de M&As no país. O volume de operações com empresas brasileiras alcançou US$ 30,6 bilhões no primeiro semestre, alta de 17,3% sobre igual período de 2025, segundo levantamento do UBS BB, com dados da Dealogic. O valor médio dos negócios avançou 32,2%, para US$ 278 milhões. E são exatamente as operações de grande porte, com destaque para os ativos de infraestrutura, que estão dando tração aos volumes.
Os compradores estrangeiros tiveram papel relevante nessa retomada. As operações transfronteiriças responderam por 52,5% do volume movimentado no primeiro semestre, ante 38,4% um ano antes. Entre os maiores negócios do período aparecem a entrada da Equatorial Energia na Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), avaliada pelo levantamento em US$ 1,1 bilhão, e a compra da Corredor Logística e Infraestrutura (CLI) pela AD Ports, por US$ 844 milhões.
Na avaliação de Anderson Brito, responsável pelo banco de investimento do UBS BB, alguns fatores explicam a presença da infraestrutura entre as grandes operações. O primeiro é a proteção contra a inflação, principalmente nos ativos de energia. Há também segmentos pouco explorados no país, como o de infraestrutura de dados, e um movimento de rotação de ativos, que é tradicional no setor. Além disso, os ativos de infraestrutura são considerados mais resilientes aos ciclos econômicos, afirma.
Do lado comprador, os fundos internacionais encontram negócios de grande porte e com horizonte mais longo de retorno, compatíveis com a estratégia de suas carteiras globais, diz Brito. Com isso, há diversos processos de peso em andamento ou em preparação em ferrovias, portos e mobilidade urbana.
Uma operação que estaria próxima de sair é a venda da fatia de 20,33% da Cosan na Rumo, maior operadora ferroviária do país, operação conduzida pelo BTG Pactual. No páreo, estariam as trading do agronegócio Cofco e Bunge, segundo fontes. A Ferromex, do grupo México, também chegou a avaliar o ativo. Segundo fontes, a Cofco tem grande apetite pelo ativo, porém, há uma preocupação de que o grupo poderia ter problemas de análise concorrencial, dado que é um usuário da ferrovia. Isso poderia atrasar a operação, e há pressa do lado da Cosan.
O grupo já vinha monetizando ativos para reduzir sua alavancagem financeira. Em dezembro do ano passado, vendeu uma parcela de aproximadamente 5% da Rumo. Mais recentemente, formalizou uma carta de intenções para vender sua participação integral no Terminal de Uso Privado Porto São Luís por R$ 300 milhões.
A CSN também está vendendo uma participação relevante, mas minoritária, em sua plataforma de infraestrutura, que reúne uma participação total de 37,5% do grupo na MRS Logística, terminais no Porto de Itaguaí (RJ), e a Tora Transportes. A companhia pretende preservar o controle operacional dos ativos e concluir uma transação ainda neste ano.
“São operações de grande porte, muitas com compradores estrangeiros”
— Antônio Coutinho
O grupo também controla a Transnordestina Logística e a companhia responsável pela construção da nova Transnordestina entre o Piauí e o Porto do Pecém (CE).
O processo faz parte de um plano mais amplo de desinvestimentos da CSN, em que a companhia busca levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões, não apenas com a venda de ativos de infraestrutura mas também a negociação do controle da divisão de cimentos. Os recursos serão usados para reduzir o endividamento do grupo.
No setor de portos, o movimento atual de M&As dá sequência a um ciclo de grandes transações iniciado em 2024, quando a CMA CGM acertou a compra da Santos Brasil, e a MSC fechou a aquisição de 56,5% da Wilson Sons.
Um dos processos iniciados naquele período e que agora pode se aproximar de uma definição é o do Porto Sudeste, terminal de exportação de minério de ferro em Itaguaí. Controlado pela Mubadala Capital e pela Trafigura, o ativo atraiu propostas da I Squared Capital e de um consórcio formado por Global Infrastructure Partners (GIP), Gerdau e Vale- esta última possivelmente não entre no capital, e sim com um acordo de longo prazo garantindo volumes mínimos, conforme antecipou o Valor.
A Codesa também foi colocada à venda pela Quadra Capital, que assumiu seu controle na privatização realizada em 2022. A companhia administra os portos de Vitória e Barra do Riacho (ES).
O investimento na companhia docas foi feito em um fundo com prazo de dez anos, então a gestão não tem pressa em vender o ativo, diz uma fonte. No ano passado, a Quadra chegou a contratar banco para a operação e atrair interessados, mas nenhuma negociação avançou. Hoje, não há discussões em curso, mas há interesse do lado do grupo em fazer o desinvestimento, segundo fontes.
Na mobilidade urbana, a Motiva busca um investidor minoritário para a plataforma que reúne suas concessões de metrôs e trens em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. A companhia já contratou um assessor financeiro e recebeu manifestações de interesse, mas ainda não lançou formalmente o processo.
Recentemente, o presidente do grupo, Miguel Setas, disse que o cenário atual não era “convidativo” para a operação, por conta das taxas de juros elevadas e da necessidade de resolver passivos regulatórios da plataforma de trilhos do grupo, para maximizar seu valor.
A possível transação faz parte da estratégia de redução da alavancagem financeira da Motiva. Há um mês, a companhia concluiu a venda de seus 20 aeroportos na América Latina para a mexicana Asur por R$ 12,2 bilhões.
Tal como no caso da Motiva, algumas operações na área têm sido dificultadas pelo cenário de juros altos e por algumas incertezas eleitorais e regulatórias, disse Mariana Saragoça, sócia do Stocche Forbes.
Já Penteado, do Machado Meyer, avalia que na maior parte dos segmentos o cenário eleitoral não deverá ter impacto. “Independentemente do candidato, ninguém espera uma mudança significativa no avanço nos programas de concessões. Já dentro das agências, dos ministérios, os processos estão bastante institucionalizados, mas é natural que neste segundo semestre algumas decisões internas, como prorrogação de contrato e reequilíbrios, sejam analisadas com mais calma”, disse.
O mercado de capitais tem sido outra via para mudanças societárias no setor. Neste ano, a privatização da Copasa foi realizada por meio de uma oferta secundária de ações que movimentou R$ 8,4 bilhões e combinou a distribuição de papéis no mercado com a entrada de um investidor estratégico. A Equatorial adquiriu 30% do capital da companhia e passou a ser sua acionista de referência. Embora não tenha sido uma operação tradicional de M&A, a oferta transferiu a Copasa ao controle privado.
Brito, do UBS BB, vê ainda espaço para um terceiro pacote de privatizações de empresas estaduais de saneamento, embora avalie que essa agenda deverá ganhar maior tração depois das eleições. Por envolver ativos de grande porte, esse movimento também poderá atrair investidores estrangeiros, afirma.
Procuradas, CSN, Cosan, Bunge, Cofco, Ferromex, Quadra, Mubadala, Trafigura e I Squared não comentaram. A Vale disse que decisões de alocação de capital passam por um rigoroso processo de avaliação e seguem as políticas e as regras de governança da companhia. A Motiva disse que não se manifestaria para além dos comentários na última teleconferência.