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Esteio do Brasil

04.08.2020 | | Notícias do Mercado

Como preconiza (ou seria melhor colocar, profetiza) a canção da “Arma Azul Turquesa”, neste momento imensamente desa­fiador da história do Brasil, a nação se apoia na força do seu Exército para manter boa parte de suas infraestruturas funcionando. Mais do que isso, confia no suporte e na prontidão de seu “braço forte, mão amiga”, para fazê-las avançar. Sendo assim, Rodovias&Vias foi à Minas Gerais, atual casa do lendário “2º Batalhão Ferroviário, Batalhão Mauá”, para conferir as operações e evoluções que a determinação de seus integrantes tem permitido ao país. Direto de Araguari, a história. A excelência. A visão e a inovação, são um recado eloquente (que inclusive, capturou a atenção do presidente), de vozes que instilam o ânimo, em um exemplo perene e resiliente.

 

Quem já teve a oportunidade de estar diante da monumental pintura “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, ou outra peça de relevância imemorial para a construção da identidade brasileira, talvez tenha um vislumbre breve da sensação adentrar os limites da sede de um verdadeiro patrimônio nacional como o Batalhão Mauá. Em seus mais de 80 anos de história, o “2º B Fv” (na sigla adotada para designá-lo), pode folgadamente ser apontado como a vanguarda do moderno ferroviarismo brasileiro.

Uma tradição que perdura até os dias de hoje, e que mais do que nunca, foi reafi rmada, uma vez que a força está subordinada à diretoria de Obras de Cooperação do Exército Brasileiro, sob o comando do General de Divisão Paulo Roberto Viana Rabelo, cujo perfi l entusiasta da inovação e atento às novas tecnologias, possibilitou maior aproximação com a indústria ferroviária brasileira e suas soluções de alta qualidade. Maior que o tempo, que foi e continua sendo testemunha de seus feitos, o Batalhão, por consolidar estas características, foi capaz de, com sucesso, ajudar a conduzir a transição do Brasil, da era do vapor, às atuais diesel-elétricas, legando no ínterim, caminhos de ferro essenciais para a logística nacional. E igualmente impressionante, o batalhão, no processo de, persistentemente dar suas contribuições para a construção do país, ao mesmo tempo, demonstra capacidade inequívoca para formar pessoas que se vão juntando à massa crítica da inteligência de engenharia. “Nosso centro de instrução funciona como se fosse uma extensão. A ideia era complementar o trabalho realizado nas escolas, pois sentiu-se a necessidade de dilatar o tempo de formação. Ingressar no Batalhão, portanto é como uma ?especialização?, a grosso modo. Além da instrução para engenharia e construção, às disciplinas de combate, do Centro de Formação de Ofi ciais da Reserva, e da formação de ofi ciais de Engenharia temporários para a tropa, também o Batalhão possui um centro de formação de condutores. Nele são adestrados condutores de todas as categorias, cargas indivisíveis, perigosas, enfi m, conseguimos somar um grande rol de habilidades aqui. Desde o operador de equipamento ao motorista da caçamba, da viatura. Na prática, é como uma auto-escola, licenciada pelo DETRAN, no que conseguimos contribuir, inclusive, com a formação de pessoal neste sentido, para as forças auxiliares, tais como Bombeiros, por exemplo, e até outros Batalhões do país”, informou o Coronel Helton Fernades de Andrade, atual comandante de o Segundo Batalhão. “A grande vantagem da nossa localização, é o fato de estarmos centralizados. Daqui nós conseguimos ter um alcance, para todos os outros batalhões do país”. Também o 2º B Fv possui acordos de cooperação com outros países, em parceria “triangular” com a ONU (Organização das Nações Unidas), oferecendo inclusive a disponibilidade de cursos em língua inglesa, conferindo, sem dúvida, status de instituição de elite ao seu Centro de Instrução.

 

“Nosso centro de instrução funciona como se fosse uma extensão. A ideia era complementar o trabalho realizado nas escolas, pois sentiu-se a necessidade de dilatar o tempo de formação. Ingressar no Batalhão, portanto é como uma ‘especialização’.”

Coronel Helton Fernades de Andrade Comandante do 2º Batalhão Ferroviário

 

 

POR DENTRO DOS CURSOS DO 2º BATALHÃO FERROVIÁRIO MAUÁ

Alguns cursos oferecem dois diplomas, em convênio com Instituições, tais como o UNITRI (Centro Universitário do Triângulo), o UFU (Universidade Federal de Uberlândia) e o IMEPAC (Centro Universitário Uberlândia), além do convênio com a ONU para oferta de instrução a países carentes de mão de obra técnica e qualificada, como Nicarágua e Guiné-Bissau.

 

OFICINA PEDAGÓGICA: Composto por estágios de manutenção, o foco sempre é economizar dinheiro. O aluno sai preparado para cuidar desde um pneu, à retirada de amostras de óleo para verificar resíduo de cobre, para calcular a hora de fazer a manutenção preditiva. A preparação capacita inclusive para resolver todos os problemas que possam acontecer em campo. Estuda-se como funciona um motor, um trem de força, a caixa de transmissão e a eletroeletrônica.

 

TERRAPLANAGEM: Capacita já desde o projeto, topografia, camadas de compactação do solo, graduação da brita, e aplicação do asfalto, bem como todas as fases da construção, desde a drenagem e mesmo a parte ambiental.

 

PRAÇA DE TRATAMENTO DE ÁGUA: Função da Arma de Engenharia, o curso ensina como tratar a água, desde o nível individual até o do batalhão, de uma brigada e de uma força tarefa.

 

MECÂNICA: Entendendo por cores estruturas e sistemas: Branco: Chassi Amarelo: Itens de segurança Vermelho: sistema Hidráulico Azul: ferramenta de penetração no solo Verde: fi nal de trem de força.

 

A GÊNESE FERROVIÁRIA: UMA TRADIÇÃO QUE COMEÇA PELO NOME

Como fica evidente, a missão que dá início à esta história de 81 anos, é calcada na vocação construtiva de engenharia do Batalhão, dedicado a construir as superestruturas e toda infraestrutura de suporte para o transporte ferroviário. Mais do que apropriada, a escolha do nome “Mauá”, que alude ao seu patrono, Irineu Evangelista de Souza, o Visconde e “Barão de Mauá”, traz consigo alguns alinhamentos históricos que superam o fato de ter sido o grande empreendedor, o responsável pela implantação da primeira ferrovia brasileira. O pioneirismo é um desses traços correlatos entre o perfil do 2º Batalhão e a figura histórica que homenageia, uma vez que já na sua constituição, em 1938, a principal tarefa da tropa, foi implantar o “tronco principal Sul” da malha ferroviária Federal e que, em grande parte, até hoje serve essa região do país. De fato, as origens do Batalhão remontam à cidade de Rio Negro, no Paraná, próximo à divisa com Santa Catarina. “Foi em meados da década de 60, com a necessidade de buscar maior integração nacional, e, naturalmente, ligar o tramo Sul à Brasília, que o 2º Batalhão Mauá veio para Araguari em 1965, chegando a Brasília em 1967. Inclusive, a primeira locomotiva a entrar na Capital Federal, está preservada aqui conosco”. Eventualmente, por conta das opções feitas pelo país, e mesmo contextos históricos, o Mauá passa a operar grandes obras rodoviárias, adicionando mais um expertise, voltando à atuar mais fortemente no ramo ferroviário na década de 90, quando, em conjunto com o 1º Batalhão Ferroviário de Lages, concluíram a Ferroeste em 1995. “Neste ano, a Diretoria de Obras de Cooperação do Exército foi eleita, pela imprensa especializada, como a maior construtora de ferrovias do país”, afirmou o Comandante, ele mesmo, um estudioso dedicado da história do Batalhão.

 

OBRAS DE COOPERAÇÃO: PRESENTE, PASSADO E FUTURO

Sempre de prontidão, como é costume à tradição militar, o 2º B Fv, costuma atuar, a exemplo de outros Batalhões do Exército, quando não há interesse privado em determinada frente de obra, ou quando há abandono – por diversos motivos – por parte das empresas que realizavam o trabalho. “As obras de cooperação com outros ministérios, notadamente o ministério dos Transportes e agora o de Infraestrutura, constituem uma demanda que atendemos. É o caso agora da Ferrovia de Integração Oeste Leste, FIOL”. Neste contexto, é importante ressaltar que, naturalmente, o Exército não entra em competição direta com a iniciativa privada pela disputa de uma obra específica: “Nós entramos e assumimos quando há algum problema técnico ou econômico, de força maior que o privado não tem condições de arcar”, resume o Coronel. De fato, quando se refere a problemas técnicos, o Exército consegue mesmo atuar como um indutor de novas tecnologias, como quando em obras na BR-101, de acordo com o comando, foram encontrados solos moles, de difícil sustentação, o EB foi aos países baixos buscar soluções para vencer o desafio “para nós, como não temos finalidade lucrativa, trazer uma inovação não é um custo. É um investimento, pois na verdade é algo que se configura como um aumento de capacidade”, afirmou o Coronel Helton, que frisou: “Ainda assim, é um equívoco pensar que o Exército, sozinho, teria capacidade de abarcar as obras que o país necessita. Primeiro, por que é necessário fomentar a economia, a livre concorrência. Segundo, por que em alguns casos, a força precisaria ter uma curva de aprendizagem muito acentuada para obter êxito em algumas aplicações, o que não é custo eficiente e pode demandar um tempo adicional inconveniente”.

 

“Para nós, como não temos finalidade lucrativa, trazer uma inovação não é um custo. É um investimento, pois na verdade é algo que se configura como um aumento de capacidade.”

Coronel Helton Fernades de Andrade Comandante do 2º Batalhão Ferroviário

 

CAPAZ E COMPETENTE: A TROPA RECEBE O PRESIDENTE

Recentemente, o Batalhão Mauá assinalou mais uma vez o seu prestígio, por ocasião da visita do presidente Jair Bolsonaro às suas instalações. Segundo chefe máximo do executivo brasileiro a fazê-lo (o primeiro foi, em 1957, o então presidente Juscelino Kubistchek, quando ainda o Batalhão era sediado em Rio Negro – PR), o capitão, acompanhado dos Ministros da Defesa Gen. Ex. Fernando Azevedo e Silva, e da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, além do Comandante do Exército Gen. Ex. Leal Pujol; do Chefe do DEC, Gen Ex Moura; do Comandante Militar do Planalto Gen Div Negraes; do Chefe de Gabinete do Comando do Exército, Gen Div Castro e o Diretor Geral da Policia Federal, Delegado Ramagem, pôde ver de perto “as potencialidades do 2º Batalhão Ferroviário visando o seu futuro emprego em obras de infraestrutura coordenadas pelo Departamento de Engenharia e Construção”, uma vez que a “Missão FIOL” está em fase final de definição, e foi encaminhada pelo DNIT (Departamento Nacional de infraestrutura de Transportes) via Ministério da Defesa junto à Diretoria de Obras de Cooperação, comandada pelo Gen. Paulo Roberto Viana Rabelo, que está à frente das obras. Ainda, de acordo com o Comandante Helton, “As tratativas se deram no mais alto nível, no âmbito do Departamento de Engenharia e Construção. O ministro Tarcísio, como oficial de Engenharia do Exército, também conhecia o trabalho do Batalhão”. Segundo o comando, logisticamente, trata-se de um movimento estratégico, uma vez que o Mauá, além de ser especializado no modal ferroviário, está situado próximo à Bahia, teatro de operações das obras da FIOL. Com 5 obras em andamento, estima-se que até o fi nal de 2020, o 2º B Fv assuma em definitivo o seu espaço nesta obra que carrega todos os elementos para ombrear-se aos grandiosos e históricos feitos do Batalhão, que conta com um efetivo de cerca de 1600 homens e duas companhias de construção, com um efetivo extra de 3 pelotões, força de operação sufi ciente para mobiliar uma superestrutura de ferrovia tal qual a Ferrovia de Integração Oeste Leste. Esta “partida para o Oeste”, liderada pelo 2º Batalhão Ferroviário Mauá, é, na visão de seu comandante, mais do que um resgate dos trilhos do Brasil: “É a possibilidade da retomada forte, de um transporte de grande capacidade e que, ao longo da história, contribuiu sobremaneira para o desenvolvimento de países com grande extensão territorial como o nosso. Grandes potências se fizeram sobre trilhos” finalizou.

 

“É a possibilidade da retomada forte, de um transporte de grande capacidade e que, ao longo da história, contribuiu sobremaneira para o desenvolvimento de países com grande extensão territorial como o nosso. Grandes potências se fi zeram sobre trilhos.”

Coronel Helton Fernades de Andrade Comandante do 2º Batalhão Ferroviário

 

MODERNOS CAMINHOS DE FERRO: DORMENTES DE AÇO

A referida disposição de busca tecnológica por parte do Exército, por vezes termina em uma volta às origens e mesmo à valorização da indústria local. Tema já abordado em detalhes por Rodovias&Vias na reportagem “O Futuro é de Aço”, da edição 116, os dormentes como os feitos pela HIDREMEC – Indústria de Materiais Ferroviários, a partir da liga metálica, praticamente nasceram com as ferrovias enquanto solução e, não por acaso, em tempos onde se busca maior velocidade de execução da via permanente, associada à legislações ambientais cada vez mais exigentes, têm se mostrado a alternativa preferencial entre os “heavy users” do setor, “gente” como VALE, MRS, VLi, e, naturalmente, a instituição modelo apresentada nestas páginas, o 2º Batalhão Ferroviário Barão de Mauá, que utiliza insumos desta natureza e, inclusive chegou a apresentá-los ao presidente Bolsonaro em sua visita técnica. Mais baratos, mais leves, com menor custo de assentamento, maior ancoragem, maior vida útil média, fornecidos em todas as bitolas utilizadas no país e capazes de cobrir maiores extensões de tramo por menos unidades, além de diversas outras vantagens, como rastreabilidade, maior controle, e precisão, por um processo que é automatizado em suas partes mais críticas. Mas nem só por isso, a HIDREMEC tornou-se a referência nacional e internacional nesta tecnologia. Tanto é, que a empresa atende a uma grande gama de clientes externos, incluindo o exigente mercado estadunidense, gerando empregos, bem como o ingresso de divisas em moeda estrangeira, o que sem dúvida, demonstra o alto gabarito de seus produtos. Muito disso, se deve, é claro, pela competência de seu ex-presidente, economista Carlos Alberto Andrade Pinto, e empreendedor visionário que, oriundo da Escola Preparatória dos Cadetes do Exército, passou a dedicar-se ao segmento ferroviário e percebeu na nova indústria, a necessidade por dormentes capazes de atender a níveis cada vez maiores de exigência. Contudo, o grande empresário, não poderá acompanhar os próximos desdobramentos da tecnologia que tanto lutou para trazer ao país, no mesmo nível ou até superior aos estrangeiros, pois nos deixou no final de 2019. Contudo, seu legado continua, perenizado pelo aço nos caminhos de ferro do Brasil, e levado adiante pela habilidade de seus filhos, e pelo talento de seu diretor Industrial, Carletto Gordano, unidos no objetivo comum de levar a HIDREMEC à novos patamares, tanto de qualidade, quanto de eficiência produtiva.

 

Fonte: Revista Rodovias & Vias – Ano 20 – Edição 123/2020 – Página 64 a 73