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Maiores ameaças da guerra à economia global estão em transportes e na insegurança para investir

05.03.2026 | | Notícias do Mercado

Fonte: O Estado de S.Paulo
Data: 02/03/2026

A primeira questão para entender o tamanho dos impactos econômicos globais que resultarão dos conflitos no Oriente Médio tem relação a por quanto tempo a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã deve se prolongar e se ela vai escalar para outras regiões.

Depois das respostas de Israel ao ataque terrorista do Hamas de outubro de 2023, já houve alguns conflitos curtos entre o país e o Irã, que não se estenderam além de duas semanas. Então, não chegaram a abalar a economia global como poderiam, principalmente, em relação aos preços do petróleo e à logística de produtos entre países e regiões.

A preocupação, agora, com os ataques dos EUA e de Israel ao Irã e as respostas bélicas, que se estenderam a bombardeios nos Emirados Árabes Unidos e no Líbano, é que os conflitos podem se estender de forma a afetar mais significativamente as relações comerciais e a produção econômica pelo mundo.

“A primeira questão, que é óbvia, tem relação com o preço do petróleo. Há expectativas de que pode chegar a mais de US$ 100 o barril, mas vai depender de quanto tempo este conflito vai durar”, afirma a professora especialista em relações internacionais Lia Valls Pereira, da Faculdade de Economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e associada do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

“Existe toda a incerteza de como os EUA vão lidar com isso. Não é so retirar os aiatolás. Tem ainda a Guarda Revolucionária do Irã. O presidente Donald Trump diz que só vai parar quando atingir os objetivos, mas ninguém sabe quais são esses objetivos”, diz.

Com o prolongamento dos ataques, os impactos, desta vez, podem se ampliar bastante além dos preços dos petróleo, diz o consultor de comércio internacional e ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral. “Pode ter um efeito extremamente negativo para o comércio internacional, por causa do um aumento geral de custos. Primeiramente do petróleo, mas também de seguros e de fretes”, afirma.

Mesmo dono da quarta maior reserva provada de petróleo, o Irã não tem grande participação atualmente no fornecimento de óleo bruto para o mundo, devido aos anos de sanções impostas pelos EUA. Em janeiro, o país asiático produziu apenas 3,45 milhões de barris por dia, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o que significa menos de 3% da oferta global. No entanto, é um importante fornecedor para a China, a segunda maior economia do mundo, que pode sentir impactos significativos para o seu abastecimento energético.

Para os outros países, o tema central é se o Estreito de Ormuz, controlado em parte pelo Irã, ficará fechado, devido à grande quantidade de navios que circulam por ali. Se o tráfego na região for prejudicado por muito tempo, haverá efeitos globais em fretes e seguros, que podem se espalhar pelas economias.

Cerca de 20% da produção mundial de petróleo passa pela região, que escoa as vendas de Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Iraque e Catar principalmente para a Ásia, mas também para a Europa.

Nesta segunda-feira, 2, o brigadeiro-general Ebrahim Jabbari afirmou que qualquer navio que tentar passar pelo Estreito de Ormuz será incendiado

Além disso, o setor de transporte é o maior afetado pelo aumento do preço do combustível. “Países que exportam muitos produtos agrícolas e commodities, como é o caso do Brasil, sentirão efeitos da diminuição da margem da lucratividade”, diz Barral.

Para o especialista em comércio exterior Jackson Campos, o desvio de navios para o Cabo da Boa Esperança e a suspensão de rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz e o Canal de Suez, junto ao Egito, têm impacto direto e quase imediato no custo do frete internacional.

“Quando os armadores deixam de utilizar as rotas mais curtas e passam a contornar a África, o tempo de trânsito aumenta significativamente, o consumo de combustível sobe e isso é repassado ao valor final do frete. Além disso, começam a ser aplicadas sobretaxas de risco de guerra e adicionais emergenciais, o que eleva ainda mais os custos logísticos em escala global”, afirma.

“No transporte aéreo, a suspensão de voos e o fechamento de espaços aéreos no Oriente Médio geram um efeito em cadeia”, diz Campos. “Há acúmulo de cargas, redução de oferta de espaço e aumento das tarifas, não apenas para a região afetada, mas também em outras rotas internacionais, já que a malha aérea é interligada. Esse tipo de interrupção costuma levar semanas para ser totalmente normalizada.”

Com custos em alta que podem se prolongar por mais tempo, uma série de incertezas se abate sobre a economia. O conflito ocorre em momento de preocupações com uma desaceleração no crédito privado e sobre quais serão os efeitos, de fato, do uso da inteligência artificial nas grandes empresas.

Cortes nos juros podem ser protelados

Também ocorre quando bancos centrais das maiores economias do planeta discutem reduzir as taxas básicas de juros de suas economias, casos dos EUA, da União Europeia, do Reino Unido e do Brasil. Se as pressões inflacionárias forem significativas, as decisões de baixas dos juros podem ser atrasadas, o que desagradará governantes, como o próprio Trump.

“Supostamente, a guerra está localizada ali no Oriente Médio, mas a questão do petróleo pode trazer um impacto inflacionário que vai tornar mais difícil a queda da taxa de juros dos EUA”, afirma Lia Valls. Os efeitos disso se espalham para as bolsas de valores, que já contavam com um relaxamento das políticas monetárias e colhiam altas com um apetite maior dos investidores para correrem riscos.

Nesse novo cenário, empresas e investidores podem reavaliar suas estratégias. “Toda a insegurança atrapalha o investimento internacional e também é importante lembrar que fundos dos Emirados Árabes são grandes investidores, inclusive, no Brasil”, defende Barral. “Por um lado, a guerra pode incentivar eles a investirem em áreas com menos conflitos. Por outro lado, faz com que empresas recorram a muitas análises de risco para decidirem por novo investimento em qualquer setor.”

A economia global atravessou melhor do que o esperado as turbulências desta década desde a pandemia de covid, como as altas de juros necessárias para controlar a inflação resultante da pandemia, as guerras da Ucrânia e na Faixa de Gaza, e as tarifas comerciais estabelecidas por Trump no ano passado. O novo conflito no Oriente Médio vai testar se ela pode continuar mostrando essa mesma resiliência, ou se o prolongamento das tensões podem derrubar o Produto Interno Bruto (PIB) global.