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Profissão ferroviário

24.02.2026 | | Notícias do Mercado

Fonte: Revista Ferroviária

Desde que a primeira ferrovia foi inaugurada no Brasil, em 1854, um motor de desenvolvimento econômico, tecnológico e social passou a impulsionar o país. E, para movimentar essa história, os protagonistas foram e continuam sendo os ferroviários. Apaixonados pelos trilhos, eles transformam a profissão em um legado.

É o caso de Antônio Carlos Alves Pereira, técnico de manutenção nas linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda. Há 43 anos na ferrovia, ele seguiu os passos do avô, pai e tios.

“Sinceramente, eu gosto muito dessa área por causa da minha família. Eles trabalharam na Estrada de Ferro Sorocabana e na Fepasa. Meu pai era maquinista. Meus dois tios eram supervisores da oficina, em Presidente Altino. Infelizmente, muitos já faleceram. Mas quando estávamos juntos, sempre falávamos das ferrovias”, explica Pereira.

Em 1983, ele já trabalhava no Pátio de Presidente Altino, em Osasco, na oficina da antiga Fepasa. O local é o mesmo no qual ele atua, atualmente, na equipe de manutenção da ViaMobilidade.

Depois de sair da Fepasa, Pereira trabalhou em outras empresas, do ramo plástico e de manutenção de trens. Ele sempre incentivou os filhos a atuarem no setor ferroviário, no entanto, destaca que a escolha final foi de cada um deles.

Diego Sciarretta Sebastião Pereira e Gabriel Sciarretta Sebastião Pereira acabaram acolhendo os incentivos e, hoje, também atuam na área de manutenção nas linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda.

Para Gabriel, fazer parte de uma geração de ferroviários sempre remete à família.

“Em 2017, eu conheci uma pessoa, que, quando soube de quem eu era neto, me deu um abraço tão forte, que eu pedi para parar, porque estava me machucando. Depois disso, ele começou a chorar. Então, eu descobri que ele e meu avô tinham um relacionamento super legal. Para você ver como é a ferrovia, hoje, eu trabalho com o filho desse cara”, relembra.

A paixão pela ferrovia também se mantém viva na família Denarde. José Roberto Denarde, o pai, acumula 44 anos de ferrovia; Carlos Denarde, o tio, 36 anos; e Lucas Seroni, o filho, com nove anos, formam essa geração. Além deles, houve uma época em que cerca de 15 familiares atuaram ao mesmo tempo na ferrovia. Todos eles trabalhando na Rumo em Araraquara.

“Eu não peguei esse período que tinham muitos familiares, inclusive da família da minha mãe. Desde que eu comecei, divido com o meu pai e com o meu tio. Sempre nas nossas reuniões, o assunto acaba sendo trem. Às vezes, não passa nem sangue na veia, passa trem, porque só falamos disso. Minha mãe acaba ficando louca com a gente”, relata Seroni.

Ele iniciou como estagiário e agora trabalha como analista de operações.

“Desde pequeno, eu sempre tive um sonho de trabalhar em uma grande empresa. Quando eu tinha 13 anos, eu participei de um concurso da Rumo para as crianças e ganhei. Na época, era muito difícil ter a família no trabalho, e meu pai não esperava por isso. No dia, eu vi os olhos dele brilharem, minha mãe também estava presente. Isso foi algo que marcou a minha infância e me incentivou ainda mais a ser ferroviário”, recorda.

Mulheres nos trilhos

Em um setor historicamente masculino também é possível encontrar relatos de mulheres apaixonadas pelos trilhos. Ivanilda Souza, maquinista na CPTM; e sua filha Isabelle Souza Pereira, supervisora do Centro de Controle Operacional (CCO) das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda representam essa nova geração.

Além de acompanharem de perto o avanço da representatividade feminina, elas também celebram realizações pessoais e profissionais na área. Neste ano, Ivanilda completa 25 anos de ferrovia, enquanto Isabelle se torna a primeira mulher a assumir um cargo de liderança no CCO.

As histórias delas se cruzam com a ferrovia de diversas formas.

“Meu pai tinha uma banca de jornal em frente à estação Barra Funda, então sempre utilizávamos bastante o trem. Tínhamos o costume de ir sempre no primeiro carro, observando o maquinista. Isso acabou gerando a vontade de entender e conhecer melhor o meio. Quando eu fiquei sabendo do concurso, eu prestei para tentar entrar e consegui. Mas já era uma coisa meio de infância esse mundo ferroviário”, descreve Ivanilda.

“Minha filha e meu filho também sempre estiveram comigo na ferrovia. Várias vezes, eu os levei em passeios ferroviários, até no turismo fora de São Paulo. Então, acho que isso acabou surgindo nela a vontade de trabalhar na área”, acrescenta.

Ao longo da carreira, elas observam mudanças significativas.

“Quando entrei, em 2018, não tinha nenhuma mulher como segurança na área. Hoje, eu já vejo muitas. Dentro do CCO, só tinha eu no meio de 50 homens. Agora, já tem dez”, exemplifica Isabelle.

“Na área da minha mãe, eu também vejo muito mais mulheres. Como ela mesmo comentou, que, na época, eram só três. Eu sinto que estamos inspirando outras mulheres e mostrando que somos tão capazes quanto os homens de exercer essa função”, completa.

Segundo ela, assumir o cargo de liderança vai além da responsabilidade do ofício.

“Historicamente é a primeira vez que uma mulher assume esse cargo, eu sinto que eu estou fazendo a mesma coisa por outras mulheres que virão. Por isso, é uma grande honra.”

Para as próximas gerações, o desejo é único: que a paixão pelos trilhos siga inspirando novas histórias.