29.06.2026 | Assessoria de Imprensa | Notícias do Mercado
Fonte: Valor Econômico Data: 29/06/2026
Trens, finalmente, estão cruzando o sertão nordestino. Após duas décadas de espera, a Transnordestina, ferrovia que ligará o Matopiba (confluência de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) ao mar iniciou sua operação experimental. Isso não significa, no entanto, que as obras estejam concluídas. Ainda faltam pouco mais de 25% dos 1,2 mil km de trilhos que separam Eliseu Martins, no Piauí, até o Porto de Pecém, no Ceará.
As obras, informa a Transnordestina Logística, subsidiária da CSN, seguem em ritmo forte e, segundo a empresa, a ferrovia estará em operação plena no ano que vem. “Temos os recursos, temos as licenças, tudo está funcionando e tudo está no prazo. As obras acabam em 2027”, afirma Tufi Daher, presidente da Transnordestina Logística.
O movimento de cargas no trecho entre o Piauí e o sertão cearense ainda é pequeno, algumas dezenas de toneladas ao mês, e tem sido feito, em muitos casos, de maneira improvisada por conta de os terminais também estarem em obras. Mas, mesmo assim, a chegada dos trens às cidades que os esperam há décadas dissipou as dúvidas de que as promessas do passado não se concretizariam. “A desconfiança acabou. Estamos vendo os trens circulando, as obras em estado acelerado. Agora vai”, diz Marden Vasconcelos, sócio-proprietário da Tijuca Alimentos.
Uma das maiores empresas de alimentação do Ceará, com fornecimento de aves, ovos e laticínios para toda a região, a companhia hoje tem cem caminhões para levar insumos para produção de ração do Piauí até a Grande Fortaleza, onde fica sua base industrial, e planeja trocar essa logística pelo transporte ferroviário. A Tijuca já transportou 2 mil toneladas de milho, sorgo e soja pelos trilhos. “Por enquanto, com a operação experimental, ainda não sentimos uma redução nos custos, mas quando a ferrovia chegar a Pecém imaginamos que poderemos reduzir nossa frota”, diz Vasconcelos. “As perspectivas para o futuro são boas.”
As desconfianças a respeito da Transnordestina não são injustificadas. O projeto começou a ganhar forma em 2006, quando foi incluída como uma das prioridades do governo federal. A ideia era integrar o sertão a dois portos: além de Pecém, o de Suape (PE). Deveria estar pronta em 2011, com cerca de 1.700 km. Quase 20 anos depois, o trecho que cruzaria Pernambuco ainda segue como promessa. Mesmo assim, a economia do Estado deve ser beneficiada.
“Nosso polo industrial no sertão do Araripe pernambucano sempre enfrentou grandes gargalos logísticos”, conta Francisco Siqueira, presidente da Siqueira Mineração, que atua na área de calcário e é fornecedora para o polo gesseiro da região. A empresa já está transportando 15 mil toneladas ao mês pelo trem e espera ampliar esse volume para 100 mil toneladas quando a ferrovia estiver em operação total.
“A ferrovia vai ter um papel fundamental não só para o meu município, mas para toda a região do sertão do Araripe e vai impactar diretamente no polo gesseiro”, afirma Helbinha Rodrigues, prefeita de Trindade (PE). Ela, como muitos pernambucanos, lamenta o fato de a ferrovia não ter seguido o traçado original até Suape. “Mas esperamos que as promessas do governo federal e do governo do Estado sejam cumpridas, como está sendo com o trecho para o Ceará”, diz.
O governo federal licitou quatro novos trechos do ramal de Suape, mas as obras foram suspensas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) até que seja provada a viabilidade econômica da obra. Na semana passada, o vice-presidente Geraldo Alckmin pediu celeridade ao TCU para analisar a questão. “Nós vamos trabalhar junto ao TCU para liberar o mais rápido possível, porque esse trecho da Transnordestina que vem para a Suape já está licitado e contratado. É só o TCU dar o ok que as obras podem começar”, disse Alckmin em um evento em Pernambuco.