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Malha Oeste: edital prevê 1,9 mil km de trilhos e R$ 15 bilhões em investimentos

27.04.2026 | | Notícias do Mercado

Fonte: Gazeta S. Paulo
Data: 24/04/2026

O frete elevado já pressiona a comida e o custo de vida no Brasil. Em meio a esse cenário, o governo prepara para lançar ainda em abril o edital da Malha Oeste, em mais uma tentativa de reativar concessões ferroviárias e ampliar o uso do transporte por trilhos.

A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla voltada à redução do custo logístico e ao ganho de competitividade da economia, com foco no escoamento de commodities como grãos, celulose e minério de ferro.

Sem melhorias em infraestrutura, os custos continuam sendo repassados ao consumidor e limitam os ganhos de produtividade no País.

O edital da Malha Oeste prevê uma ferrovia de 1,9 mil km de extensão, que sai da fronteira brasileira com a Bolívia, no Mato Grosso do Sul, a São Paulo. São previstos R$ 15 bilhões em investimentos ao longo de 57 anos de concessão.

Ela faz parte de uma grande rede de concessões ferroviárias, que incluem obras, como o Anel Ferroviário do Sudeste, entre Rio de Janeiro e Espírito Santo, e a Ferrovia Transnordestina, que vai cruzar 53 municípios do interior do Nordeste ao litoral do Ceará.

Na avaliação do economista Carlos Henrique Junior, CEO da Sttart Pay, o ativo permanece fortemente ancorado em commodities cíclicas, o que amplia a exposição às oscilações de preços no mercado internacional e ao ritmo de produção no Centro-Oeste.

O histórico de baixa utilização também entra no cálculo. Na ausência de contratos de longo prazo que garantam demanda, cresce a incerteza em torno da geração da receita, especialmente nos primeiros anos de operação.

Ao mesmo tempo, o transporte rodoviário segue dominante na matriz logística brasileira. A flexibilidade e o alcance dos caminhões funcionam como uma barreira adicional à migração de cargas para o modal ferroviário.

Custo de modernização pressiona retorno e afasta investidores

A modernização da Malha Oeste deve exigir aportes bilionários. A infraestrutura atual demanda intervenções estruturais, atualização tecnológica e recomposição de trechos degradados.

Esse conjunto de investimentos eleva o custo de entrada e tende a se consolidar como uma das principais barreiras à atração de capital.

Segundo Carlos Henrique, consultado pela reportagem, a viabilidade do projeto está condicionada a um contrato mais robusto, com mecanismos de mitigação de risco e maior previsibilidade de receita.

O ambiente de juros elevados adiciona pressão. Com o custo de capital mais alto, o apetite por projetos de longo prazo diminui, enquanto cresce a exigência por segurança e retorno consistente.

Segurança jurídica entra no centro da decisão de investimento

A previsibilidade regulatória aparece como variável crítica na decisão de investimento. Mudanças contratuais, revisões tarifárias e regras de reequilíbrio costumam ser analisadas com cautela por investidores.

Na leitura do economista, o desempenho da concessão tende a depender menos da infraestrutura disponível e mais da capacidade de oferecer segurança jurídica e estabilidade regulatória.

Em ausência desse ambiente, o interesse do capital privado pode permanecer limitado, sobretudo em um ativo que carrega histórico de incertezas.

Projeto testa estratégia do governo para o setor ferroviário

A concessão da Malha Oeste é tratada por players da infraestrutura como um indicativo relevante da estratégia do governo para destravar investimentos no modal ferroviário.

Uma adesão robusta pode sinalizar maior confiança, reduzir a percepção de risco e abrir espaço para novos projetos. Por outro lado, um resultado abaixo do esperado tende a reforçar incertezas e dificultar o avanço de futuras concessões.

O mercado acompanha de perto. A resposta ao edital deve ajudar a indicar se o país tem capacidade de transformar ativos subutilizados em projetos economicamente viáveis e atrativos ao capital privado.

O impasse entre baratear o frete e atrair o operador

A ferrovia tem potencial para ampliar a integração do Centro-Oeste e reduzir o custo logístico no país, com possíveis efeitos sobre o preço final de produtos e a competitividade das exportações.

Apesar desse potencial, o projeto ainda enfrenta entraves relevantes. A previsibilidade de demanda, o volume de investimentos e o risco regulatório seguem entre os principais pontos de atenção.

A publicação do edital deve funcionar como um teste de modelo. O desenho proposto precisará equilibrar interesse público e retorno privado, condição-chave para atrair capital e viabilizar a expansão da malha ferroviária brasileira.