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Para liberar a ferrovia que vai ligar Rio de Janeiro e Espírito Santo, o Iphan quer uma varredura arqueológica equivalente a três vezes a ilha de Fernando de Noronha, e o Ministério dos Transportes considera a exigência desproporcional e inviável

25.05.2026 | | Notícias do Mercado

Fonte: Click Petróleo e Gás
Data: 24/05/2026

 

A ferrovia EF-118, conhecida como Anel do Sudeste, prevê 246 quilômetros de novo corredor ferroviário entre São João da Barra, no Rio de Janeiro, e Santa Leopoldina, no Espírito Santo. O Iphan passou a exigir pesquisas arqueológicas ao longo de 500 metros de cada lado do traçado, o que significa varrer 7.332 hectares apenas em um trecho inicial de 73 quilômetros, área equivalente a quase três vezes a ilha de Fernando de Noronha. A Infra S.A. considera a exigência desproporcional e o leilão da ferrovia, previsto para junho, foi adiado para outubro de 2026.

A primeira ferrovia que o governo Lula planejava leiloar pode empacar por tempo indeterminado por causa de uma disputa sobre quantos quilômetros de terra arqueólogos precisam vasculhar antes de a obra começar. A EF-118, que vai ligar o Porto do Açu, em São João da Barra, no Rio de Janeiro, à Estrada de Ferro Vitória-Minas, no Espírito Santo, é um corredor de 246 quilômetros projetado para transportar cargas entre os dois estados. O problema surgiu quando o Iphan incluiu no licenciamento da ferrovia a exigência de levantamentos arqueológicos ao longo de 500 metros de cada lado do traçado, dez vezes mais do que os 30 a 50 metros habitualmente exigidos em obras desse tipo.

A Infra S.A., estatal responsável pela etapa inicial do licenciamento, calculou que apenas em um trecho de 73 quilômetros entre Anchieta e Presidente Kennedy a pesquisa envolveria 7.332 hectares, área equivalente a quase três vezes Fernando de Noronha. O levantamento exigiria equipes de arqueólogos percorrendo fazendas, áreas rurais, terrenos de mata e pastagens, com a necessidade de obter autorização de centenas de proprietários privados. O Ministério dos Transportes vê na determinação um trabalho de magnitude desproporcional que pode comprometer a viabilidade da ferrovia.

O que é a ferrovia EF-118 e por que ela importa

A EF-118 prevê a construção de 246 quilômetros de novo corredor ferroviário entre São João da Barra, no litoral fluminense, e Santa Leopoldina, no Espírito Santo. O traçado da ferrovia parte do Porto do Açu, segue até os municípios capixabas de Presidente Kennedy e Anchieta e termina na conexão com a Estrada de Ferro Vitória-Minas.

A ferrovia é a primeira de oito concessões planejadas pelo governo Lula para o setor ferroviário. O edital estava previsto para março de 2026 e o leilão para junho, mas o cronograma já escorregou: a publicação do edital agora está prevista para meados de agosto, com leilão em outubro. O atraso principal se deve à análise do Tribunal de Contas da União sobre a minuta do edital, mas a disputa arqueológica com o Iphan acrescenta uma camada adicional de incerteza.

O que o Iphan exige e por que a Infra S.A. discorda

A divergência está na definição de quanta área ao redor da ferrovia precisa ser pesquisada por arqueólogos. O Iphan, seguindo uma nova instrução normativa publicada em 2025, determinou que a pesquisa arqueológica abranja a Área de Influência Direta, que no caso dessa ferrovia se estende por 500 metros de cada lado do traçado. A Infra S.A. argumenta que o levantamento de campo deveria se concentrar na Área Diretamente Afetada pela obra, uma faixa de 30 a 50 metros que corresponde ao terreno onde a intervenção física realmente acontece.

A diferença é brutal em termos de escala. Pesquisar 500 metros de cada lado ao longo de 246 quilômetros de ferrovia significaria varrer dezenas de milhares de hectares de terreno. A Infra S.A. afirmou que essa exigência “implicaria demanda de tempo, recursos humanos e financeiros de magnitude desproporcional” e propôs uma alternativa: fazer o levantamento de campo na área da obra e estudar a zona de influência por meio de bases bibliográficas, análise de potencial arqueológico e contextualização histórica.

A nova instrução normativa que mudou as regras

O pano de fundo da disputa é uma instrução normativa do Iphan publicada em 2025 que ampliou significativamente o escopo das pesquisas arqueológicas exigidas em processos de licenciamento ambiental de grandes obras como a ferrovia. Antes, o foco era concentrado em patrimônio material já conhecido, sítios previamente identificados e áreas diretamente afetadas pelas obras. A nova norma expandiu a análise para impactos indiretos, patrimônio arqueológico potencial e uma avaliação preventiva mais abrangente.

O Iphan declarou à Folha de S.Paulo que as exigências “seguem estritamente os procedimentos e critérios técnicos previstos na legislação vigente” e que a delimitação da área de pesquisa seguiu informações apresentadas pelo próprio empreendedor no processo de licenciamento. A Infra S.A. reconheceu que não questiona a competência do órgão nem a importância da proteção do patrimônio, mas defende que a nova regra precisa ser calibrada para projetos lineares de grande extensão como a ferrovia.

O impasse que pode travar a primeira concessão ferroviária de Lula

O Iphan não tem poder de veto sobre a ferrovia, mas se não der anuência à sua área de responsabilidade, o Ibama não emite a licença ambiental. Na prática, a exigência arqueológica funciona como um bloqueio indireto: sem acordo, a licença não sai e a obra não avança, mesmo que o leilão da concessão possa ocorrer sem a licença prévia.

A estatal Infra S.A. está em negociação com o Iphan para definir uma metodologia de licenciamento que concilie proteção do patrimônio com viabilidade operacional. O desafio é encontrar um meio-termo que satisfaça a nova norma sem inviabilizar a ferrovia. A Infra S.A. argumentou que o levantamento extensivo exigiria obter autorização de centenas de proprietários rurais, fator externo ao controle do empreendedor e que pode atrasar o processo por meses ou anos.

O que está em risco se a ferrovia atrasar ainda mais

A EF-118 não é apenas uma concessão: é o teste de credibilidade do programa ferroviário do governo. Se a primeira ferrovia do pacote não conseguir avançar por causa de uma disputa sobre o tamanho da pesquisa arqueológica, as sete concessões seguintes enfrentarão o mesmo precedente, e investidores podem perder confiança na capacidade do governo de executar seu cronograma.

O setor de transporte acompanha a situação com apreensão. A ferrovia ligaria o Porto do Açu à malha ferroviária do Espírito Santo, criando uma rota alternativa para escoamento de cargas que hoje depende exclusivamente de rodovias congestionadas. O impasse entre proteção patrimonial e desenvolvimento de infraestrutura não é novo no Brasil, mas a escala da exigência do Iphan nesse caso chamou atenção por elevar a barra a um patamar que a Infra S.A. classifica como inédito e inexequível.